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Contraste moderno

Isabella Stewart Gardner tinha o seu lugar preferido no mundo: a romântica Veneza. No final do século XIX, essa colecionadora de arte e filantrópica americana gastava seu tempo viajando por diversos países do mundo com seu marido, Jack Gardner, e se encantou pela cidade das gôndolas e pela cultura italiana. Tal paixão seria a principal fonte de inspiração para que ela projetasse, em 1902, um lugar em Boston (EUA) para abrigar o enorme acervo artístico que reuniu durante sua vida. Simulando os traços de um palácio veneziano, o museu Isabella Stewart Gardner exibiu durante mais de um século uma coleção de 5 mil objetos, compreendendo 30 séculos de história, com obras de Botticelli, Ticiano, Michelangelo e Rembrandt, além de esculturas, móveis, tapeçarias e manuscritos.

No entanto, com o passar do tempo e o ritmo intenso de atividades, a estrutura do espaço começou a se desgastar, e surgiu a necessidade de uma ampliação. A tarefa de aliviar a pressão sobre o histórico edifício coube, coincidentemente, a um italiano, o arquiteto vencedor do Pritzker Renzo Piano. “O palácio de Isabella Gardner, com sua inestimável coleção e inimitáveis instalações, sempre será o foco, mas só poderia permanecer assim com a construção de um novo prédio”, afirmou Anne Hawley, diretora do museu.

A nova ala é formada por quatro volumes revestidos com cobre pré-patinado verde colocados sobre um piso de vidro, criando a impressão de flutuação. Ela foi desenhada para proporcionar ao visitante uma relação visual contínua com a edificação original. A galeria de exposições, que irá receber três grandes mostras por ano, conta com pé-direito triplo e um teto retrátil que varia de tamanho de acordo com o programa exibido. A sala é banhada pela luz natural que entra por uma claraboia e pela fachada de vidro ao lado Norte, com vista privilegiada para o edifício idealizado por Isabella Gardner.

“Esse é um lugar para onde nós podemos levar as obras de arte do acervo. Assim dá para observar algo na sua mão um pouco mais cuidadosamente por um tempo, e três ou quatro meses depois elas voltam a descansar no palácio”, diz Renzo Piano. A mesma estética foi levada ao Cafe G, o novo restaurante do centro cultural, que com três de seus lados tomados por paredes transparentes, permite que as pessoas façam suas refeições com a presença constante da construção veneziana e jardins adjacentes.

O aproveitamento dos raios solares é apenas uma das medidas adotadas para dar um toque de sustentabilidade à expansão do museu. O anexo foi projetado para receber a certificação Leed Gold do Green Building Council dos Estados Unidos. Para isso, também foram instalados oito poços geotérmicos a fim de aumentar a eficiência dos sistemas de aquecimento e resfriamento, uma solução que pode proporcionar uma redução de até 25% no consumo de energia. Um sistema de captação e armazenamento das águas pluviais faz a irrigação dos jardins. Boa parte dos materiais utilizados na obra são locais ou regionais e possuem componentes reciclados.

Outro destaque do projeto é a sala para performances. Desenhada em colaboração com o engenheiro acústico Yasuhisa Toyota, da Nagata Acoustics, o espaço teve seus 296 assentos distribuídos em três andares – além do piso principal – ao redor de todo o palco, preservando a experiência intimista que caracteriza as apresentações musicais do local. “A ideia da sala de espetáculos é ser uma câmara harmônica, onde as pessoas aproveitam o som, mas também desfrutam olhando nos olhos do homem ou da mulher na frente delas”, explicou Piano.

O museu ainda conta com novas estufas abertas aos visitantes interessados em ver as plantas que estão sendo preparadas para o jardim, uma sala para aulas de paisagismo, um estúdio de arte com oficinas para todas as idades e dois apartamentos com fachada de vidro inclinado, destinados a receber os artistas do seu programa de residência.