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Diferencial ecológico

Em tempos de preocupação com o aquecimento global, o conceito de sustentabilidade parece ter deixado a roda dos ecologistas e ativistas e ganhado o mundo. Bom para o planeta e ótimo para os negócios. Empresários e executivos do mercado imobiliário – incluídas as construtoras, incorporadoras e até os clientes alarmados pelo futuro do planeta – não poderiam ficar de fora do tema. O resultado? Os chamados green buildings, os “prédios verdes”. Muito mais que uma construção ecologicamente correta, esse tipo de empreendimento sustentável se tornou um grande diferencial de marca, venda e atitude, com oportunidades atrativas e reais de novos negócios.

Newton Figueiredo, presidente da empresa de engenharia de sustentabilidade SustentaX, define empreendimentos sustentáveis como aqueles que, “harmonizados com o meio ambiente e com a comunidade de sua influência, proporcionam o melhor retorno para seus investidores e proprietários, além de menores custos e melhor saúde, conforto e produtividade para seus ocupantes”. Já Thassanee Wanick, presidente do Green Building Council Brasil (GBCB), completa que “as técnicas aplicadas nesse tipo de empreendimento promovem melhor desempenho estrutural dos edifícios e o aumento da qualidade de vida de seus ocupantes, além de evitar o desperdício de recursos naturais e reduzir os custos de manutenção”. O fato é: um green building, hoje, é um diferencial de mercado.

“Atualmente não há dúvidas de que todos querem estar dentro do tema da sustentabilidade. Além disso, as pessoas estão procurando fazer alguma coisa para se inserir nesse novo momento, postura que deve se tornar fator fundamental para auxiliar na decisão de compra deste ou daquele edifício, desta ou daquela casa”, afirma Marcelo Takaoka, diretor-presidente do recém-criado Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS).

Segundo ele, o tema está em todas as pontas da cadeia construtiva: “para o investidor, os aspectos da sustentabilidade serão decisivos na hora de decidir pela compra de imóveis sustentáveis ou não. Esse será um diferencial competitivo. O incorporador e o construtor vão querer adotá-los em seus empreendimentos – uso racional de água, energia e reciclagem de lixo hoje representam adicionais ao produto imobiliário. O comprador, por sua vez, quer fazer sua parte economizando água, energia elétrica e emitindo menos poluição, o que se reflete não só no meio ambiente, mas no próprio bolso”.

Diferenciação competitiva

Para ser um green building, o edifício precisa contemplar normas internacionais e ser certificado pelo selo Leadership in Energy and Environmental Design (Leed) – em português, algo como “Liderança em Energia e Design Ambiental”. Atualmente, esse é um dos sistemas de avaliação e certificação reconhecidos mundialmente, que emite selos de acordo com as características da construção.

Outro, mais ou menos na mesma linha, por exemplo, é o modelo francês Haute Qualité Ambientale – HQE, ou Alta Qualidade Ambiental. Para obtê-lo, o empreendimento passa por uma avaliação em quesitos, como uso da iluminação natural, baixo uso de energia, tratamento adequado do esgoto, sistemas econômicos de ar-condicionado, uso de materiais reciclados, capacitação e reaproveitamento da água da chuva e gestão de perdas e resíduos.

Cada categoria vale um determinado número de pontos. Quanto mais pontos o projeto somar, mais graduado será, podendo ser enquadrado em uma das seguintes categorias: Certificado, Prata, Ouro e Platina. No total, são 69 pontos – e o mínimo exigido para obter a certificação, que varia de tipos construtivos (comerciais, residenciais ou novos, entre outros), são 26 pontos. O nível mais alto é o Platina, para empreendimentos que pontuarem na faixa dos 52 a 69 pontos, ou seja, de 85% a 100% das exigências atendidas (veja box “Tipos de Leed”).

“O green building, felizmente, é hoje uma tendência irreversível”, avalia Thassanee Wanick. “Fora os benefícios ambientais, ele consegue reunir um conjunto de práticas que melhora e valoriza a localização do empreendimento, o design e os próprios custos, ainda que em longo prazo. Isso sem falar que cria uma marca de credibilidade no mercado, que vai muito além do marketing barato, fortalecendo, por exemplo, a carteira de clientes. Que instituição financeira, na hora de investir, não vai olhar para isso, ou seja, para a longevidade de um benefício real antes de fechar negócio?”, indaga.

Dados do U.S. Green Building Council (USGBC) – organização sem fins lucrativos criada em 1993 nos Estados Unidos, responsável pela consolidação do sistema Leed e certificação de edificações ambientalmente sustentáveis – mostram que existem hoje cerca de 800 edifícios comerciais (veja box “Green building no mundo”) já certificados em todo o mundo, e outros quase sete mil projetos (também de construções comerciais) registrados no USGBC, em busca do selo. Atualmente, segundo Thassanee, cerca de 6% do mercado imobiliário norte-americano já cumpre as normas do Leed. “A expectativa é que nos próximos anos 10% dos prédios dos Estados Unidos tenham o selo verde”, comemora.

Já o presidente da SustentaX diz que este é o caminho da diferenciação competitiva daqui para frente. “A partir de agora não bastará ter produtos e serviços de qualidade, preços e atendimento bons. O cliente percebe quando, por trás do sorriso do atendente, há responsabilidade social e ambiental. Não é à toa que empresas grandes, como Bradesco, Unilever, Itaú e McDonald’s, propagam isso. Elas já falam há muito tempo em práticas socioambientais. A novidade é que, de agora em diante, essas ações deverão fazer parte de seu planejamento estratégico, visando a sustentabilidade competitiva de seus negócios”. Ainda de acordo com Figueiredo, para ser sustentável é preciso um equilíbrio entre ética e fatores econômicos, sociais e ambientais.