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Cola de marisco

Os oceanos contam com uma ampla variedade de fauna que produz substâncias que podem ser aproveitadas pela ciência. Alguns exemplos disso são as cracas (tipo de crustáceo), que se cimentam às rochas; as estrelas do mar, que utilizam um tipo de adesivo para se locomover, e os mexilhões azuis comuns (Mytilus edulis), que geram uma “super-cola” com adesão sobre praticamente qualquer superfície. Foi a partir deste princípio que o pesquisador e professor de química inorgânica Jonathan Wilker e sua equipe iniciaram estudos, na Universidade de Purdue, em Indiana, nos Estados Unidos, para compreender como tais materiais biológicos funcionam, projetar imitadores sintéticos e desenvolver aplicações que servirão, inclusive, para o setor de construção civil.

“Em termos de adesivos para a indústria de construção, acredito que os imitadores sintéticos serão o melhor caminho a seguir. Isso porque o material pode ser extraído dos mexilhões, mas não em quantidades muito grandes”, alega. Segundo ele, os mexilhões azuis comuns têm características muito peculiares: eles produzem uma mistura de proteínas adesivas que contêm um aminoácido denominado dopa e aderem às rochas e outras superfícies úmidas. “Podemos imitar as complexas proteínas adesivas dos mexilhões. Assim, é possível ter acesso a grandes quantidades do material, costurar a composição e chegar às diferentes propriedades de adesivos desejadas”, explica.

“Atualmente estamos patenteando a tecnologia e procuramos sócios industriais para comercializar os materiais. Assim, os adesivos não estão atualmente disponíveis para aplicações na construção, mas esperamos que isso possa ocorrer no futuro”, afirma o pesquisador. A substância, de acordo com Wilker, poderá ser adaptada para colar madeira, metal e até concretos. O laboratório da universidade tem cerca de 800 mexilhões que ficam alojados dentro de grandes tanques. Os pesquisadores utilizam verificadores de tração e outros equipamentos similares para testar a colagem do produto junto aos materiais. O pesquisador ainda aposta na utilização desses adesivos na medicina, em colas cirúrgicas e até para uso dental.

Wilker e sua equipe também estudam as propriedades da cola do mexilhão zebra (Dreissenia polymorpha) para encontrar formas de impedir que esses animais engatem nos navios. Esses bivalves foram introduzidos nos Estados Unidos na década de 1980, provavelmente como “passageiros clandestinos” no lastro de um navio que viajou da Europa para os Grandes Lagos. Os custos para controlar a praga, que se agarra a quase tudo que é sólido, até o ano 2000, passaram dos US$ 500 milhões.

Tintas amigáveis

Com o objetivo de promover construções cada vez mais sustentáveis, surgem no mercado diversos produtos que visam reduzir as agressões ao meio ambiente. O setor de tintas não poderia ficar de fora. Um desses produtos é a tinta Solum. Com uma paleta de 15 cores, o produto tem como base a “tinta de terra” – um revestimento ecológico e sustentável desenvolvido com pigmentos minerais puros de terra e base aquosa não tóxica, livre de metais pesados encontrados em pigmentos sintéticos.

A tinta é produzida por meio de processo físico, sem auxílio de meio químico e com baixo uso de energia. A matéria-prima é extraída de jazidas certificadas e, durante a transformação em produto final, não há emissões tóxicas. Também é livre de Compostos Orgânicos Voláteis (COV’S), substâncias poluentes derivadas do petróleo, que agridem a camada de ozônio.

Quem idealizou o produto foi a arquiteta Letícia Achcar, adepta da arquitetura organicista, que há 25 anos realiza construções ecológicas no Brasil e na Europa utilizando a terra crua. Entre as qualidades do produto, a arquiteta destaca a intensidade das cores, que não desbotam porque o pigmento é mineral. A tinta também não possui plastificante, não cria película ou bolhas. É inodora e permite que a parede respire, pois a composição natural, sem resina acrílica, faz com que a umidade interna ao substrato seja trocada com o ambiente externo.

Inovações

Outras empresas também têm investido no conceito de sustentabilidade, como a AkzoNobel. A fabricante global de tintas e revestimentos, proprietária das marcas Coral e Sparlack no Brasil, lançou cinco novos produtos classificados como amigáveis ao meio ambiente. É o caso do Decora Luz & Espaço, um acrílico premium da Coral com a tecnologia internacional patenteada Lumitec – que provoca sensação de maior luminosidade e ajuda a tornar o ambiente mais claro. Com isso, o consumidor ligaria a luz mais tarde e obteria economia de energia elétrica.

Já a Rende Muito Tinting passou por uma adaptação em sua fórmula e se tornou uma tinta base, podendo agora receber pigmentação das máquinas do sistema tintométrico. O consumidor pode escolher mais de mil cores e usufruir do mesmo rendimento por litro das cores prontas. O produto dilui até 60% com água e pinta até 380 m2 por lata de 18 litros.

Outro produto que sofreu adaptação foi a Coralar Acrílico. A nova fórmula permite maior cobertura e baixa emissão de CO2 e teor reduzido de componentes voláteis (VOC). A oferta de cores do Coralar Acrílico foi expandida.

O verniz Sparlack Efeito Natural é uma novidade da marca Sparlack que conta com fórmula à base de água e teor residual muito baixo de voláteis orgânicos. O último produto apresentado, que surge agora na versão à base de água, é o Sparlack Extra Marítimo Base Água, que apresenta teor residual mínimo de voláteis orgânicos e baixo nível de CO2.

Átomos futuristas

Associada a diversas áreas de conhecimento como a eletrônica, física, química e engenharia de materiais, a nanotecnologia é uma das apostas da indústria do vidro para criar produtos diferenciados, que podem contribuir para um melhor controle acústico e solar e maior sustentabilidade.

O princípio básico desta promissora área é a utilização de átomos para a confecção de produtos. Apesar de parecer pós-moderno, o conceito de nanotecnologia não é tão novo assim. No distante ano de 1959, o físico e vencedor do prêmio Nobel, Richard Feynman, já focava seus discursos em palestras na futura existência de um campo de conhecimento baseado na miniaturização, capaz de criar pequenos e poderosos dispositivos.

Em 1986, Eric Drexler, considerado um dos pais da nanotecnologia, apresentou ao mundo o termo no livro Engines of Creation. A partir daí, a pesquisa científica da área se expandiu e já é empregada em setores como a indústria do vidro. Engana-se quem pensa que a nanotecnologia serve apenas para a criação de dispositivos pequenos com alto poder de processamento de informações – atualmente ela também é utilizada na confecção de materiais mais sustentáveis.

Um bom exemplo é a linha de vidros Bioclean, produzida pela Cebrace. Segundo o gerente de desenvolvimento de mercado da empresa, Carlos Henrique Mattar, o produto vem atender uma demanda de redução na manutenção em envidraçamentos de áreas de difícil acesso, como coberturas e fachadas. A capacidade de autolimpeza, característica principal do Bioclean, foi possibilitada graças à utilização de nanotecnologia na concepção da linha. “Havia a necessidade de uma ‘camada’ que trabalhasse com os recursos presentes na natureza e pudesse se regenerar constantemente”, explica.

A nanotecnologia permitiu utilizar sobre a superfície do vidro uma camada fina de dióxido de titânio que, ao entrar em contato com os raios solares UVA, reage com o oxigênio e as moléculas de água da atmosfera e produz radicais livres, ocasionando uma variação oxidativa. O dióxido é um elemento semicondutor muito utilizado como agente fotocatalítico (acelera uma reação química por meio da luz ou outra fonte de energia radiante); a propriedade fotocatalítica do mineral o torna um excelente aliado no controle de microorganismos nocivos ao homem.

A oxidação degrada os materiais orgânicos que comumente se depositam na superfície dos vidros e os transforma em moléculas voláteis, eliminando o uso de produtos de limpeza em sua face exterior. Assim, fachadas desenvolvidas com esse tipo de tecnologia não são afetadas por poeira, resquícios de chuva, respingos marítimos, poluentes atmosféricos ou orgânicos. Adicionam-se a esta vantagem competitiva a proteção contra os raios solares UV e a visão sempre nítida, mesmo em dias chuvosos.

De acordo com a Cebrace, se corretamente especificado e com a inclinação adequada, a ação autolimpante do produto é ativada em poucos dias após a primeira exposição à luz solar, reagindo de acordo com o grau e a natureza das sujidades. A empresa indica o uso do vidro com propriedades nanotecnológicas (cuja espessura é de 4 mm) sempre em áreas externas, como fachadas, coberturas (com inclinação acima de 10%), janelas, portas e sacadas, bem como em setores de infraestrutura, como aeroportos ou pólos industriais – estes últimos, por estarem sujeitos a altos níveis de poluentes.

Sobre o uso da nanotecnologia em outros produtos da empresa, Mattar explica que a Cebrace costuma avaliar como as tecnologias produzidas globalmente no grupo formado pela joint-venture entre a japonesa NSG/Pilkington e a francesa Saint-Gobain podem ser aplicados no Brasil. “No momento, estamos concentrando nossos esforços na linha de vidros para controle solar, que devem passar por uma nova evolução”, declara.