Desenvolvimento tecnológico
O mundo parece evoluir enquanto o setor da construção civil se mostra conservador em alguns aspectos. Promover a mudança em um segmento tão tradicional parece ser mesmo um grande desafio – que Alexandre Mariutti assumiu na
sua carreira com a Construtora Sequência, uma empresa tradicional e familiar.
Formado em arquitetura em 1991, logo executou um prédio residencial de 72 unidades. Ao final dessa obra, deparou-se com uma série de questões. Via na obra muitas coisas erradas que não deveriam ter ocorrido. Mariutti notou que os problemas de desperdício, por exemplo, não eram responsabilidade direta da construtora, mas da maneira como as coisas eram executadas, do sistema construtivo.
Nessa época, teve a oportunidade de fazer uma viagem ao exterior e conheceu o sistema construtivo americano. Fazia parte de um grupo de convidados que iriam importar casas daquele país. “Mergulhamos em uma fábrica, onde ficamos
durante um mês. Tínhamos aulas sobre como eram fabricadas as casas, as normas e tudo mais. Depois acompanhamos algumas obras, que utilizavam o sistema wood frame (madeira). O steel frame estava no início nos Estados Unidos. Ouvi falar que alguém estava trabalhando com aço leve, mas era novidade”, conta.
Após essa experiência, Mariutti decidiu trazer 27 casas para o Brasil, enfrentando um grande desafio logístico. “Aprendemos, apesar do desgaste, mas ganhamos uma grande bagagem de construção e de logística”, diz. Nessa primeira fase, optaram por importar absolutamente tudo, mesmo sabendo que tinham produtos no Brasil, como louças sanitárias, metais e azulejos, entre outros. “Fizemos isso para pegar todas as fases direito, ver se havia alguma
inter ferência, se daria para utilizar o nacional ou não”, alega. A fábrica nos Estados Unidos colocava tudo em contêineres que esvaziavam aqui no Brasil, retirando os painéis das casas, já montados.
O primeiro lote foi para o Brooklin, em São Paulo. Foram necessários mais de 30 contêineres para concluir sete casas. “Nesses contêineres veio de tudo. No primeiro que abri, estavam os eletrodomésticos, um monte de coisas que iríamos
usar depois de meses. Tivemos que adaptar tudo isso e passamos a diminuir o número de itens importados. A partir da 27a casa, começamos a fazer por conta própria”, lembra.
Em seguida, o próximo desafio de Mariutti foi lidar com o desenvolvimento da indústria madeireira no país, pois os equipamentos e a qualidade da madeira brasileira eram diferentes dos do exterior. Outro ponto era a rejeição do material no país.
Nesse mesmo ano de importação, Mariutti visitou feiras no exterior, onde teve contato com o steel frame. “Pensamos: se os caras estão começando a fazer steel frame, por que vamos passar pela fase da madeira para depois mudar? Vamos começar a nossa indústria com ele. E o meu sonho de construção era fazer como eles fazem, fabricando e mandando para a obra as coisas montadas”, conta.
O empresário desenvolveu uma linha de produtos e os clientes deveriam aceitar o que havia disponível, mas não deu certo. Isso porque a personalização de casas no Brasil é muito grande, diferente dos americanos, onde o projeto se repete milhares de vezes e vai se aprimorando na medida em que o tempo passa e os clientes dão o feedback do que
precisa ser melhorado. “Mas entendemos que nosso mercado é diferente e temos de nos adaptar a ele. Fizemos durante muitos anos residências de todos os tipos e para todos os proprietários possíveis, cada um com um sonho”, conta.
O resultado é que, a despeito das dificuldades, a Construtora Sequência passou a usar o steel frame em lugar das obras convencionais. Atualmente, a marca só trabalha com esse sistema, executando qualquer tipo de solução. A empresa não vende projetos de arquitetura, nem trabalha com incorporação. “Paralelamente a isso, começamos a mudar o foco do nosso cliente e a trabalhar para incorporações, como Petrobrás e a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano), fazendo escritórios e alojamentos, entre outros, e diminuindo o número de residências”, diz Mariutti.
A dificuldade da empresa até hoje é que pouco se conhece sobre steel frame. “O brasileiro está globalizado em vários aspectos: tem um carro que roda no mundo inteiro, celular, computador, máquina fotográfica, roupas, tudo dele é globalizado, mas a sua casa, não. Meu sonho é ter uma indústria, é vender frame. Hoje temos uma fábrica, que trabalha
apenas para nossa construtora, e só utilizamos metade da sua capacidade produtiva”, explica.
Mariutti trabalhou a vida toda na empresa da família e hoje acumula em seu currículo vários metros de steel frame construídos. “Acho bacana acompanhar esse processo, apesar de sentir falta de não ter trabalhado em outro lugar, o que poderia ter me dado outra bagagem. Mas é bonito ver o que já construímos de frame no Brasil. Acho que hoje devo ter em meu currículo quase 100 mil metros de steel frame edificados. No Brasil, não existe isso, não tem quem tenha um volume desses. Isso nos deixa bastante satisfeitos”, conclui”.

Texto: Aline Cunha Foto: Isis Minchillo
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