Estrutura africana
A Copa do Mundo na África do Sul, este ano, é mais que a maior reunião do mundo dos esportes: é um dos meios encontrados para melhorar a vida dos sul-africanos e cidadãos de outros países do mesmo continente. Em reunião com líderes empresariais influentes em Nova York, o presidente do Comitê Organizador do Mundial, Danny Jordaan, falou sobre os grandes negócios e o potencial de investimentos da região devido ao evento. “Esta foi uma das razões fundamentais que fizeram com que perseguíssemos a ideia de sediar a Copa do Mundo. É sobre o investimento adicional ao país e crescimento do comércio e oportunidades econômicas”, disse.
Jordaan se refere ao enorme aporte em infraestrutura realizado no país. Além dos novos estádios, R$ 5 bilhões foram reservados aos aeroportos da África do Sul, incluindo o consequente aumento da capacidade do seu principal aeroporto, O.R Tambo Internacional, agora capaz de receber 28 milhões de passageiros por ano. Outros investimentos ocorreram no sistema de transporte ferroviário rápido Gautrain, que liga a província de Gauteng por meio de uma rede de alta velocidade; R$ 22,8 bilhões foram destinados à melhoria da infraestrutura rodoviária, R$ 4,2 bilhões foram previstos para um upgrade no sistema ferroviário e há o impulso maciço em infraestrutura turística.
O governo sul-africano prometeu segurança a milhões de torcedores do evento: R$ 1,6 bilhão está destinado à prevenção da criminalidade e dos serviços de justiça. Todos os esforços foram feitos também para assegurar o preparo adequado das áreas de saúde e dos serviços médicos para esta Copa.
Construção
Em visita à África do Sul, o diretor da GCP Arquitetos e autor do projeto Arena Cuiabá para a Copa de 2014, Sergio Coelho, contou suas impressões sobre as obras naquele país. “O que mais nos impressionou nas obras dos estádios foi a qualidade da construção. Estruturas metálicas, coberturas metálicas ou em membranas, concreto aparente e acabamentos foram bem executados e montados. Áreas comuns foram feitas sem luxo gratuito, mas com bastante cuidado”, contou.
Em relação à infraestrutura, Coelho comentou os aeroportos. “Alguns com obras terminando no prazo-limite, mas igualmente com qualidade de execução e design contemporâneo. Não há nenhum aeroporto no Brasil hoje que se compare aos principais da África do Sul”, garante.
Segundo o arquiteto, os estádios da Copa deste ano seguem basicamente o padrão construtivo universal, misto, ou seja: estrutura de concreto (in situ ou pré-moldada) no bowl (arquibancadas e estruturas sob elas), garagens e podium (praça de acesso). Nas coberturas, há estruturas metálicas, cabos de aço inox (em casos específicos, tensionando a cobertura), deques metálicos, vidro, policarbonato ou membranas de PTFE (Politetrafluoretileno, popularizado pelo nome comercial teflon®). “Nos fechamentos das fachadas, em alguns casos há pilares de concreto, outros em aço e “cascas” em membranas de PTFE, PVC, brises metálicos ou painéis compostos com fibra de vidro e cimento”, informa Coelho.
Já as inovações na arquitetura estiveram presentes para o mercado sul africano: “primeiramente, no que se refere à escala/tamanho e prazo de construção. Além disso, o maior desafio foi na construção e montagem das coberturas. O uso de estruturas metálicas leves e tensionadas com materiais modernos como mantas EPDM (etileno propileno-dieno monômero M-classe, elastômero de larga escala de uso) e membranas de PTFE apresenta novas possibilidades para coberturas de grandes vãos, com vantagens envolvendo durabilidade, translucidez e rapidez de montagem”, alega o arquiteto.
Outra inovação vista por lá, de acordo com Coelho, foi a possibilidade de redução de capacidade da arena após a Copa do Mundo. Um exemplo é o que está sendo feito em Cape Town e Durban, sem falar nas Olimpíadas de Londres, em 2012, que pelo uso de elementos metálicos aparafusados em parte das arquibancadas permite a adequação da capacidade do estádio à demanda real no legado pós evento.
Em relação ao uso do vidro, Coelho conta que o produto está presente em fachadas, coberturas (no caso de Cape Town) e em divisórias, seja nas recepções Vip e VVip, como em todas as fachadas internas dos estádios. “Camarotes, restaurantes e lounges têm suas divisórias voltadas para o gramado em painéis envidraçados”, diz.
Quanto aos estádios, Coelho destaca o Soccer City “pela força simbólica da fachada, com suas cores mimetizando o entorno de montanhas ‘construídas’ dos resíduos das escavações de minas de ouro. A terra da África, o fogo. Seu belíssimo bowl, que dá uma sensação de amplitude, com proporções muito felizes”. E o Moses Mabhida: “um dos grandes nomes da resistência ao apartheid recebeu uma digna homenagem através deste belíssimo projeto. A grande abertura no bowl, entre as duas pernas do gigantesco arco-tripé que sustenta a leve cobertura, dá ao projeto uma identidade única e de enorme beleza”, conclui.
Em relação à experiência que pode ser aproveitada para a Copa do Mundo no Brasil em 2014, Coelho lembra que a própria Fifa já fez alguns comentários aos projetos para o país a partir de experiências do evento na África do Sul. “Já fomos informados que, após esta Copa, muitas questões operacionais serão consideradas para sejam incorporadas aos estádios de 2014. Especificamente em termos de arquitetura e construção, tudo o que nós arquitetos da Copa podemos querer é utilizar as mesmas e modernas tecnologias para termos ganhos em sustentabilidade e qualidade de construção. Temos que usar esse evento para dar um salto de qualidade geral no nosso mercado. O fato de que no Brasil vários estádios, como o nosso, terão certificação LEED, já é um grande avanço em relação à Copa 2010”, sustenta.
Quem também esteve na África do Sul foi o vice-presidente de Arquitetura do Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco), Leon Claudio Myssior. “As obras são de boa qualidade, porém muito atrasadas. Além disso, há acabamentos espartanos. Diria que são obras industriais, com pré-fabricados, nada de novidade. O que salta aos olhos, e é uma preocupação que devemos ter aqui no Brasil, é a enorme quantidade de insumos importados na África, a única coisa local é o concreto”, diz.
Myssior alega que o único estádio da África do Sul que leva em conta a questão cultural é o Soccer City. “Ele possui vasos de barro do interior do país, e interage com a paisagem cultural local; os outros não tiveram essa preocupação”, explica.

Estádio Soccer City
Localização: Johanesburgo, província de Gauteng Capacidade: 94.500 lugares (88.430 permanentes)
Custo: US$ 440 milhões Arquiteto: Boogertman Urban Edge Construtora: joint venture entre Grainaker-LTA e Interbeton
Início das melhorias: fevereiro/2007

Estádio Cape Town
Localização: Cape Town (Cidade do Cabo), província de Western Cape Nome alternativo: Estádio Green Point
Capacidade: 66.000 lugares (55.000 permanentes) Custo: US$ 600 milhões Arquiteto: GMP Architects
Construtora: joint venture entre Murray & Roberts e WBHO Início da construção: março/2007

Estádio Ellis Park
Localização: Johanesburgo, província de Gauteng Nome alternativo: Coca-Cola Park
Capacidade: 61.639 lugares Custo: US$ 7.200 Arquiteto: DBM Architects
Construtora: Rainbow Construction Início das melhorias: julho/2007

Estádio Loftus Versfeld
Localização: Tshwane/Pretória, província de Gauteng Capacidade: 49.365 lugares
Custo: não divulgado Arquiteto: Ingplan Africa
Início das melhorias: setembro/2007

Estádio Durban
Localização: Durban, província de Kwazulu-Natal Nome alternativo: Estádio Moses Mabhida
Capacidade: 69.957 lugares (54.000 permanentes) Custo: US$ 450 milhões Arquiteto: Ibhola Lethu
Construtora: joint venture entre Group 5, WBHO e Pandev Início da construção: outubro/2008

Estádio Royal Bafokeng
Localização: Rustenburg, província North-West Capacidade: 44.530 lugares
Custo: não divulgado Arquiteto: BSP Architects
Início das melhorias: setembro/2007

Estádio Nelson Mandela Bay
Localização: Porto Elizabeth, província de Eastern Cape Capacidade: 46.082 lugares (42.000 permanentes)
Custo: US$ 270 milhões Arquiteto: Architectural Design Associates e Dominic Bonnesse Architects
Construtora: joint venture entre Grinaker-LTA, Interbeton e Ibhayi Início da construção: março/2007

Estádio Free State
Localização: Mangaung/Bloemfontein, província de Free State Nome alternativo: Vodacom Park
Capacidade: 45.058 lugares Custo: não divulgado Arquiteto: ACG Architects
Construtora: joint venture entre Ruwacon, Meyker Re Teng Construction, Ikaneng Developments e Promania 128
Início das melhorias: setembro/2007

Estádio Mbombela
Localização: Nelspruit, na província de Mpumalanga Capacidade: 43.589 lugares
Custo: US$ 140 milhões Arquiteto: RL Architects Construtora: joint venture entre Basil Read e Bouygues
Início da construção: fevereiro/2007

Estádio Peter Mokaba
Localização: Polokwane, na província de Limpopo Capacidade: 45.264 lugares
Custo: US$ 150 milhões Arquiteto: Prism Architects Construtora: joint venture entre WBHO e Paul
Início da construção: março/2007
Texto: Aline Cunha
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