Madeira plantada e construção sustentável
No início de setembro, reuniram-se em Curitiba, na sede do Senai (Serviço Nacional da Indústria), cerca de 50 pessoas ligadas à construção civil e à produção de madeira plantada (pínus e eucalipto) para discutir caminhos para a implantação do sistema construtivo de Wood Framing no Brasil. Bastante difundido em todo o mundo (75% das habitações da América do norte), onde a madeira é utilizada na estruturação de paredes portantes, o sistema sofre no Brasil pelo preconceito e desconfiança.
Essas pessoas, vindas do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande de Sul, representam dez fornecedores de madeira plantada, oito de outros materiais de construção, nove construtoras, dois fornecedores de equipamentos, seis projetistas e quatro universidades, além de representantes da CE F, IPT , Associação Drywall, AsBEA e representantes da Secretaria Econômica do Estado Alemão de Baden-Württemberg, que tem convênios de formação profissional na área da madeira com o Senai Paraná.
Foi implementado um plano de ação com seis grupos de trabalho: Matéria-prima, Normatização, Associação, Financiamento, Formação Profissional e Marketing, com coordenação geral a cargo dos engenheiros Caio Bonatto, Diogo Lovato e Lucas Maceno, da Tecverde Engenharia, de Curitiba.
Outro evento do setor foi o II Simpósio Brasileiro de Construção Sustentável, promovido pelo Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS ). Foram apresentados documentos de “Posicionamento CBCS ”, entre eles o chamado “Uso Sustentável da Madeira na Construção Civil”. Ele restaura algumas verdades científicas usualmente confundidas pelo grande público quanto ao uso da madeira na construção civil. Destaco aqui alguns trechos desse documento (a íntegra está no site do CBCS , www.cbcs.org.br/comitestematicos/materiais/producaocbcs):
“Dos poucos materiais de construção renováveis, a madeira é um deles. O uso desse material tem o potencial de reduzir a pressão sobre os materiais não renováveis, de estoque limitado”. “O Brasil dispõe hoje de grandes plantações de espécies exóticas de madeira, em especial pínus e eucalipto. Esses produtos agrícolas apresentam rápido crescimento e produtividade cada vez mais elevada, fruto do melhoramento genético e clonagem. Plantadas por decisão do homem, retiram CO2 da atmosfera...”
Finalmente, ouvimos o que deveria ser óbvio a respeito do uso desse material, mas que é sistematicamente atacado pelo preconceito. Ora motivado por ignorância dos fatos, ora por conveniência de defensores de materiais de pouca ou nenhuma sustentabilidade, há quem se apóie na ideia de que, ao poupar uma árvore, você colabora com o planeta. Isso vale tanto para a madeira nativa quanto para a plantada. Há os que atacam as plantações de exóticas como o eucalipto e o pínus como “verdadeiros desertos verdes”; ora, uma plantação para produção agrícola não pretende substituir outros predicados da floresta nativa, que para cumprir com seus papéis de manutenção dos biomas depende da produção da madeira plantada destinada a outros fins.
A madeira plantada, usada em larga escala pela construção civil, exerce outro papel importante de sustentabilidade do negócio. O Brasil detém o estado da arte na produção de madeira a partir do eucalipto e possui 5,5 milhões de hectares de áreas plantadas; esse negócio possui baixíssimas barreiras de entrada e o fornecimento da matéria-prima não concentrado nas mãos de poucas empresas permite às construtoras utilizá-la sem riscos de saltos expressivos de preço em função de variações no mercado internacional. Utilizá-la na construção civil não é só saudável para o planeta, mas para o planejamento da obra.
Texto: Marcelo Sacco
* Marcelo de Freitas Sacco é Arquiteto formado pela FAU-USP, com especialização em Administração de Empresas pela FGV-SP, e diretor da Preservam e da Assim
(Associação da Indústria Madeireira de Capão Bonito).
|