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Debate verde
As tendências para a construção sustentável e suas aplicações para o uso eficiente de recursos naturais foram os temas principais da segunda edição do Simpósio Brasileiro de Construção Sustentável, realizado em São Paulo. Na ocasião, foi lançado o Relatório de Avaliação de Políticas Públicas para Redução da Emissão de Gases de Efeito Estufa em Edificações. O documento foi elaborado por meio de uma parceria entre o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e a Universidade da Europa Central (CEU).
A programação iniciou-se com o painel que discutiu a importância da construção civil nas mudanças climáticas e contou com a participação de Fábio Feldman, ambientalista; Rachel Biderman, coordenadora do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas; Cláudio Maretti, superintendente de conservação do WWF-Brasil; e Marcelo Takaoka, do Conselho Brasileiro da Construção Sustentável.
Os debatedores apresentaram um panorama geral da construção sustentável social e mostraram como as políticas públicas podem influenciar na construção civil por meio de projetos que tenham um maior grau de sustentabilidade para a habitação social levando em consideração o aquecimento global. “A negociação em Copenhague discutirá exatamente o que países como Brasil irão se comprometer a fazer em prol do movimento sustentável. Colocar metas é induzir, provocar para que possamos caminhar para uma economia de diminuição do carbono”, relata Fábio Feldman.
As iniciativas capitaneadas por cidades em torno das ações sustentáveis foram ressaltadas por Rachel Biderman. Como exemplo, a coordenadora citou uma ação internacional com a adesão de mais de 700 governos municipais, entre eles o da cidade de São Paulo. “Nesse caso, os associados se comprometem a assumir planos e ações de políticas públicas para a redução dos gases de efeito estufa”, descreve Rachel.
Já Cláudio Maretti defendeu a ideia de as mudanças construtivas passarem pela criação de um novo paradigma climático na construção civil. Mas para isso, Maretti ressaltou que o Brasil precisa ter uma posição de liderança, o que cria condições para a inovação. “Apesar do desmatamento, não é certo dizer para não usar a madeira da Amazônia. Precisamos de, no mínimo, empregar um terço dessa nossa floresta para manter a Amazônia como uma mente funcional que presta serviços para a humanidade e para o Brasil, inclusive na retenção do carbono. Uma parte tem de ser protegida e outra usada de forma sustentável. E é de extrema importância que o mundo reconheça o que o Brasil está fazendo, porque temos condições de sermos líderes nesse assunto”, enfatizou.
As discussões avançaram no segundo painel, que teve como pauta a Gestão e Inovação na Construção Sustentável. A rodada foi coordenada pela professora da Unicamp e dirigente do Comitê Temático de Avaliação de Sustentabilidade do CBCS, Vanessa Gomes.
Participaram da mesa o diretor do Powell Center for Construction and Environment, Charles J. Kibert; o sócio sênior da Foster+Partner, Brandon Haw; o conselheiro da CBCS e professor da Poli-USP, Orestes Gonçalves; e o coordenador do Comitê Temático Materiais do CBCS e também professor da Poli-USP, Vanderley John.
Em sua fala, Charles Kibert defendeu a construção verde e a necessidade de um redesenho dos programas voltados para a construção sustentável. Segundo ele, a ideia é que se utilize um ecossistema integrado que vise o reaproveitamento máximo de todo o tipo de material. “Usamos a filosofia do ‘berço ao berço’ em um sistema de reaproveitamento. A proposta é projetar pensando na vida útil daquela construção, com o propósito da reutilização de material. Já temos exemplos de uma casa modular, durável, fabricada de maneira a ser reutilizada. Usa-se 50% da energia das casas convencionais e gasta-se 20% menos na construção. Ou seja, o máximo uso do projeto passivo”, conta.
Para Brandon Haw, a necessidade é de se criar uma realidade sustentável e pensar em soluções práticas para a redução de CO2 Ele discute o fato de, até hoje, existirem construções que nunca foram pensadas de forma sustentável, mas apenas no conforto. Segundo Haw, criar uma cidade fantástica e desenvolver a sustentabilidade econômica, social e ambiental requer equilíbrio entre diversos setores, principalmente privado e público. “Hoje, ao projetarmos uma cidade, temos de planejar onde as pessoas gostariam de estar futuramente e como elas poderiam se integrar ao meio ambiente. Com isso, pensamos principalmente em sistemas ambientais que vão desde a direção do vento até saber onde contemplar o nascer e o pôr do sol”, comenta.
Já Orestes Gonçalves falou sobre o uso da água em cidades e edifícios. “Mais do que a necessidade de reduzir o consumo ou a obtenção desse bem, é necessária uma gestão do consumo de água, com estratégias e dimensões desse uso. É uma questão que tem de ser encaixada numa visão sistêmica não apenas em um único edifício, mas sim relacionando o sistema público e o sistema predial de distribuição de água”, comenta.
No encerramento da segunda rodada de painéis, Vanderley John criou um panorama com as possibilidades de melhorias, análise de ciclos de vida, instituição de métricas, incentivo do uso de madeira industrializada, seleção de fornecedores pensando no impacto na natureza, entre outras ações mais sustentáveis. “Sabemos que a construção financia muitos impactos naturais, o desmatamento, por exemplo, mas a construção social precisa crescer. Precisamos acabar com as favelas, criar estradas, e tudo depende da construção civil. Por isso, para sobreviver será necessário inovar. Mas fica a questão: como mudar um setor que tem sido um dos mais resistentes à inovação?”, questiona John.
Energia
A eficiência energética foi o tema do terceiro painel do simpósio. O tema foi Inovação e Soluções em Eficiência Energética e teve os debates coordenados pelo engenheiro elétrico e presidente do Comitê Gestor de Indicadores e Níveis de Eficiência Energética, Paulo Leonelli. Compuseram a mesa o professor dos Laboratórios de Energia Solar e Eficiência Energética da Universidade de Santa Catarina, Ricardo Ruther; o engenheiro civil e membro fundador e secretário da Associação Nacional para Simulação de Desempenho de Edificações (IBPSA-Brasil), Fernando Simon Westphal; o diretor sênior de Energia e Mudança Climática da Philips Lighting, Harry Verhaar; e da secretária do Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat (PBPQ-H), Maria Salete Weber.
Leonelli abriu a discussão falando sobre a Etiquetagem de Edificações que regulamenta edifícios públicos, comerciais e de serviços – a Etiqueta Nacional de Conservação de Energia (ENCE) no âmbito do programa Procel Edifica, como forma de mostrar a curva de eficiência atual e orientar quanto ao uso correto da solução energética.
Já Ruther mostrou o uso da tecnologia fotovoltáica no Brasil, levantando questões técnicas e de gerenciamento dessa fonte. “Hoje, quase 40% do consumo de energia está associado às edificações. Levando em conta que 80% da população brasileira vive na cidade, viabilizar o sistema fotovoltáico em edificações urbanas conectados à rede elétrica pública, em um futuro próximo, terá o custo do que se gasta hoje com uma concessionária de energia”, afirma.
Para ele, o potencial da geração fotovoltáica integrada a edificações e conectada à rede elétrica do Brasil depende de um programa junto ao governo a ser desenvolvido em todo o país.
Westphal falou sobre confor to térmico e luz natural em edifícios e escritórios, considerando questões de sustentabilidade e eficiência energética e a demanda do mercado hoje, que exige um visual externo muito for te e soluções para edificações já concebidas. “O mercado passa por um momento de reflexão. Nosso desafio é atender às necessidades do mercado com um bom desempenho térmico e energético. Para isso, iremos utilizar equipamentos e arquiteturas de alta eficiência, como orientação solar e aber turas no edifício, materiais modernos de isolamento térmico, iluminação e refrigeração, qualidade nas instalações e sistema inovadores”, afirma Westphal.
Harry Verhaar concluiu o terceiro painel apresentando o relatório do programa EEB – Energy Eficiency in Buildings, desenvolvido no âmbito do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD). “É necessário que o mercado pense como é trabalhada a relação do uso de energia em nossos edifícios. Alguns desafios devem ser levados em conta, como aumentar o conhecimento e importância desse impacto ambiental, para que todos saibam do valor de um bom trabalho; ter mais políticas públicas para que as transformações sejam rápidas e investimentos nos edifícios de maior potencial de baixa CO2”, ressalta.
O último painel do simpósio tratou dos desafios da sociedade frente a mudanças climáticas. Coordenado pela arquiteta e diretora regional do ICLEI, Laura Valente, a discussão se iniciou com breve apresentação das atividades realizadas pelo ICLEI. Participaram da mesa o vice-presidente executivo do Instituto Ethos, Paulo Itacarambi, e o coordenador dos Programas de Trabalho Decente e Empregos Verdes da Organização Internacional do Trabalho (OIT/Brasil), Paulo Muçouçah.
Levando em consideração as propostas estratégicas para a atuação das empresas nos próximos dez anos, Itacarambi sugestionou o grande esforço que a sociedade brasileira precisa fazer para enfrentar as ameaças ambientais. As análises mostram que o custo futuro para enfrentar os efeitos das emissões de poluentes é bem maior do que os custos dos esforços hoje para se evitar essas consequências.
Encerrando o evento, Muçouçah falou sobre os empregos verdes e a transformação do perfil dos empregos no mundo. Como exemplos disso, citou o investimento em capacitação profissional; formação de gente capaz de utilizar as novas tecnologias, como projetistas e instaladores de energia solar, por exemplo. “É a transformação das economias, dos ambientes de trabalho e dos mercados laborais rumo a uma reserva sustentável que proporciona meios de sobrevivência com baixas emissões de carbono”, finalizou.
Texto: Karla Soares
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