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Por trás do show
Megashows e eventos são promovidos todos os anos no Brasil, sempre com público garantido. Festivais e shows de estrelas internacionais brilham em grandes produções. Nomes como Madonna, Iron Maiden e Alanis Morissette, entre outros, que já estiveram no Brasil, garantem um espaço pouco falado na construção civil: o da edificação dos palcos. Como garantir a segurança das estruturas? Quais são os materiais utilizados? Qual é a qualidade dos fios e cabos? Quantas pessoas são empregadas?
Tais questionamentos preliminares sobre o tema parecem não ser lembrados pelos que vão assistir a programas como os festivais de música Planeta Terra e Spirit of London, além dos megashows. O que antecede tamanho sucesso de público, segundo o presidente da Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (Abece), engenheiro Marcos Monteiro, são procedimentos de projeto estabelecidos pelas normas brasileiras e internacionais, conduzindo a estruturas com níveis de segurança adequados a seus usos.
A segurança de uma estrutura, independentemente do material usado em sua construção, começa por um bom projeto. “Esse cuidado deve ser acompanhado por um processo executivo que respeite as orientações do projeto e, posteriormente, sejam realizadas manutenções periódicas e, quando for o caso, corretivas, que conservem a estrutura com a sua condição original de uso”, diz Monteiro. No caso de palcos, o engenheiro lembra que empresas especializadas possuem estruturas modulares para esse fim. Recomenda que o contratante se certifique da existência de um responsável técnico.
Essa responsabilidade é comprovada por meio de um documento, Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), que deve ser registrado no Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea). “O engenheiro responsável registrará seu parecer atestando a adequação da estrutura para o uso desejado, seu estado de manutenção, bem como adequação da montagem efetuada”, diz Monteiro.
O engenheiro recomenda ainda que, além da segurança, a estrutura deve atender a outro requisito importante: a facilidade e rapidez de montagem e desmontagem. Estruturas tubulares metálicas e de alumínio são as mais utilizadas para a montagem de palcos, mas a área de estruturas é constantemente contemplada com inovações tecnológicas. “Duas das grandes vertentes atuais são o surgimento de novos materiais poliméricos e a integração das fases de planejamento, projeto e construção por meio do Building Information Modeling (BIM)”, explica Monteiro.
Promotoras
Integrante do Grupo B, a empresa de marketing promocional B/Ferraz é responsável pelo evento Planeta Terra e Guaraná Antártica Street Festival (Gas festival). O diretor-geral de Operações da empresa, Koji Matsushita, concorda com as questões levantadas pelo representante da Abece e diz haver diversos pontos necessários para obter uma estrutura bem planejada. “Analisar o projeto de acordo com a necessidade técnica, além do envolvimento de profissionais capacitados e com vasta experiência em projetos dessa natureza, é imprescindível para definir os detalhes estruturais”, diz. O custo em estruturas, segundo ele, representa aproximadamente 20% do total da produção de um show.
Matsushita lembra que os desenhos e projetos técnicos são o passo seguinte após a fase inicial de avaliação. Todos os pontos se transformam em um desenho estrutural e nele se verifica de fato sua viabilidade e proporção. “Nessa etapa, analisamos toda a carga que o palco deverá suportar; toneladas de equipamentos de luz, som e vídeo devem estar definidas para que a montagem estrutural seja planejada corretamente. Além da parte técnica, devemos considerar também a geografia local e o clima. Caso o espaço seja ao ar livre, precisamos contemplar a velocidade do vento, bem como chuva, sol e todas as possibilidades previstas para anteciparmos qualquer problema”, avalia.
O projeto de iluminação do palco é desenvolvido por um light designer. “É muito comum também que cada banda tenha seu iluminador próprio. Sendo assim, temos um iluminador responsável para cada banda diferente que entra no palco”, afirma Matsushita. Já as coberturas temporárias são feitas com tecido de poliéster de alta tenacidade revestido com PVC. As lonas contêm aditivos para bloquear os raios ultravioleta (UV) e antifungos, sendo confeccionadas respeitando cálculos de vento e inflamabilidade.
Festival CO2 neutro
Evento dá exemplo de como colaborar com as questões climáticas
O CO2PENHAGEN é o primeiro festival CO2 neutro de cultura, arte e música do mundo. Durante sua realização, em setembro passado, na Universidade Técnica da Dinamarca, foram abertas as portas para um universo de música, arte, filmes e tecnologia, onde foi possível demonstrar como a mais recente tecnologia verde pode ser usada para criar uma plataforma sustentável e repleta de experiências.
O evento se destaca dos demais festivais do mundo por ser 100% CO2 neutro. Isso significa que ele não compra cotas de CO2 nem importa energia do exterior. Usa somente as mais recentes tecnologias de baixo consumo de energia, que é produzida no festival, por meio de fontes sustentáveis. Ele é um exemplo concreto de como os grandes eventos podem se tornar CO2 neutros.
Especialistas
Todas as empresas contratadas para cada uma das etapas do processo possuem sua equipe, cada qual com a sua especialidade. “Se considerarmos apenas a parte estrutural, podemos estimar cerca de 100 profissionais, entre engenheiros, arquitetos, coordenadores, supervisores e carregadores”, diz Matsushita. As empresas contratadas executam um treinamento de seu pessoal para atender todas as normas exigidas pela brigada de incêndio (bombeiros), pelo Departamento de Controle do Uso de Imóveis (Contru) e pela Polícia Militar. “Contamos sempre com uma brigada de bombeiros durante a montagem, evento e desmontagem, monitorando possíveis focos de perigo. Também contamos com uma ambulância para eventuais ocorrências”, lembra o diretor.
A Mondo Entretenimento, que também atua no segmento de entretenimento e marketing promocional pertencente ao Grupo B, já promoveu shows com Iron Maiden, The Killers, Jonas Brothers e Alanis Morissette. Assinou também o Natura Nós About Us, evento de música baseado no pilar da sustentabilidade. A receita do sócio da empresa. João Paulo Affonseca para fugir de estruturas mal planejadas, é trabalhar com fornecedores idôneos e com experiência comprovada.
De acordo com ele, o material utilizado para a estrutura de palco pode ser o aço, alumínio ou uma combinação dos dois – caso de estruturas verticais em aço e eto em alumínio. “Tudo o que será colocado no palco, principalmente o que for pendurado no teto, será informado às companhias contratadas para que apresentem seus cálculos de segurança e projeto de montagem”, diz Affonseca.
“A luminotécnica é realizada por empresas do ramo de iluminação de shows, que têm seus produtos (a maioria importada) e atendem aos desenhos e necessidades dos iluminadores de cada artista”, conta o executivo. Segundo ele, a fiação usada é reaproveitada, seja ela proveniente das empresas de iluminação, seja das empresas de geradores. A mão de obra contratada envolve vários níveis de empregos, a começar pelas empresas especializadas no transporte e manejo (carregamento) das cargas.
A especializada envolve os riggers (alpinistas), empregados metalúrgicos da indústria de andaimes, carpinteiros, eletricistas, geradoristas, operadores de maquinaria (empilhadeiras e gruas) etc.
Grande cidade
O coordenador e produtor de shows e eventos Roberto Bandeira Júnior está justamente do outro lado do balcão, entre os profissionais altamente qualificados. Presta serviços para a Time Four Fun, que produziu diversos shows nos estádios do Morumbi, Pacaembu e Parque Antártica. No currículo, espetáculos de grupos como 14 Bis, Raul Seixas, Van Halen, Blitz, Kiss, Quiet Riot, Motorhead, Deep Purple, Yellow Man, Fight, Depeche Mode, Shirley Maclane, Simple Red, Três Tenores, Back Street Boys, Eric Clapton, Red Hot Chilli Pepers, Sandy e Junior e Rush. “Montamos uma verdadeira cidade nos estádios e temos de desmontá-la em 24 horas”, diz.
Bandeira conta que a empresa contratada para fornecer a estrutura do palco é a Rohr, que possui uma divisão especializada em eventos. “Ela faz apenas a parte das estruturas modulares, deixando passagens por baixo do palco para futuras manutenções, e o fechamento com piso de madeira”, explica. A metragem e a altura do palco variam de acordo com o artista que irá se apresentar. “Quando as bandas montam uma turnê, já especificam uma série de detalhes, inclusive essas medidas”, conta. Ele próprio conta com seus fornecedores. A empresa Um por Um faz toda a estrutura com as divisórias, tanto cozinha, camarins, salas de visitas, sala de imprensa como tudo que fica no backstage, atrás do palco. Uma equipe hidráulica faz as instalações de chuveiros e pias, entre outros. Há também um responsável por fazer todo o acabamento dos banheiros já existentes nos estádios. “É preciso deixá-los adequados para receber as estrelas”, completa.
As empresas responsáveis pelo som e iluminação são, respectivamente, a Gabisom Áudio Equipments e a Aurolights Sistemas de Iluminação. “Essa empresa de som possui todos os equipamentos encontrados no exterior e está preparada para qualquer tamanho de evento”, enfatiza.
Todo o transporte internacional é feito pela Customs Company. Os equipamentos passam pela alfândega e já contam com um caminhão para pegá-los. Outros prestadores de serviço são responsáveis por colocar o material publicitário no estádio e ocultar o que já estava instalado; dispor a quantidade de carros já especificada nos requisitos da banda; fazer a sinalização externa e interna dos estádios; disponibilizar carriers, chamados mãos de palco, que ajudam a carregar materiais; fornecer os banheiros químicos instalados ao longo do estádio; fazer o atendimento médico, quando necessário; brigada de incêndio; fornecer tendas, entre outros.
Quando há um show, o estádio precisa ser alugado por uma semana. “Em termos de construção, é preciso colocar o easyfloor. Esse tipo de piso favorece a fotossíntese da grama, que não pode sofrer nenhum dano, senão deve ser recuperada antes da devolução do estádio. Há um engenheiro no local responsável pela verificação das condições do gramado, além de outro engenheiro oficial, que faz a vistoria na entrega do espaço”, explica. O piso, instalado 24 horas antes do espetáculo, é disponibilizado em grandes rolos, que cobrem a grama e são encaixados.
Também são alugados geradores para não utilizar a energia do estádio. “Eles só oferecem as luzes de serviço. Então alugamos um gerador para o estádio e outros dois só para o palco. Além disso, fica um caminhão de diesel disponível para abastecer os geradores”, diz.

Toda a energia do CO2PENHAGEN foi gerada no próprio evento, por meio de fontes sustentáveis, como os painéis solares.

Palco do Planeta Terra
Texto: Aline Cunha
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