Voltam o emprego, a renda e os velhos desafios
Os passos rumo à recuperação econômica mostram-se cada vez mais sólidos. De janeiro a julho deste ano, a indústria brasileira já registrou crescimento de 9%. Ainda não foi suficiente para recuperar o tombo do final de 2008, mas os números são consistentes e alimentam a confiança dos empresários.
Para os consumidores, a manutenção do emprego e continuidade do crescimento da renda tem contribuído para sustentar as vendas no varejo. Com a volta da confiança, os investimentos começaram também a retornar, o que é fundamental para dar sustentabilidade ao crescimento.
No setor da construção, os números são ainda mais positivos e indicam que o ambiente de crise foi superado. Os indicadores de emprego confirmam esse cenário. Em julho, o número de empregados com car teira voltou a registrar recorde, ou seja, as vagas perdidas no final do ano não apenas foram recuperadas, mas o emprego for - mal alcançou seu melhor patamar desde que a pesquisa é realizada.
Esse resultado reflete o crescimento de dois impor tantes segmentos: o imobiliário e o de infraestrutura. Os investimentos em infraestrutura, amparados pelos recursos do BNDES, sofreram menos com a crise e mantiveram desde seu início o ritmo de crescimento anterior.
Mas a área habitacional sofreu bastante; a dificuldade na obtenção de recursos para financiar capital de giro e o pessimismo dos compradores levou à queda expressiva dos lançamentos. Obras iniciadas continuaram, mas as perspectivas eram bem negativas já para o segundo semestre. Apesar disso, a pesquisa de julho mostrou que as contratações da área habitacional também se intensificaram.
Embora o resultado em si não permita falar que essa tendência irá se confirmar nos próximos meses, a análise por segmento dá pistas de que o pior parece mesmo ter ficado para trás, corroborando a melhora das expectativas. O segmento de preparação de terrenos, uma fase que antecede a das obras, tem aumentado sensivelmente as contratações. Por tanto, a sinalização é de que o crescimento obser vado em julho deve se confirmar.
No entanto, antes de comemorar, o setor tem de ficar alerta: se o emprego atingiu novo pico em agosto e as perspectivas para os próximos meses são de novas obras, seja por conta do PMCMV, seja pelos novos lançamentos nas fai - xas de maior renda, haverá mão de obra disponí vel suf iciente – e preparada – para dar cont a da nova demanda?
Antes da crise, quando os lançamentos imobiliários se sucediam em ritmo alucinante, a cadeia da construção vivia momentos de grande preocupação com a necessidade de aumentar a qualificação de sua mão de obra. A redução das atividades durante a desaceleração dos meses passados não tirou essa questão da ordem do dia; agora ela ressurge com força.
Texto: Ana Maria Castelo e Maria Antonieta Del Tedesco Lins
*Ana Maria Castelo é economista, consultora da FGV Projetos. Maria Antonieta Del Tedesco Lins é economista, professora do Instituto de Relações Internacionais da USP.
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