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Um mundo melhor
Há cerca de 20 anos, os arquitetos Marcelo Todescan e Frank Siciliano mantêm em São Paulo a Todescan Siciliano Arquitetura, que atua principalmente na criação de projetos focados em sustentabilidade. Em entrevista à Construção&Negócios, ambos comentam a crise global e as oportunidades que ela oferece, contam sua trajetória e falam sobre o promissor mercado da sustentabilidade.Acompanhe a entrevista:
Construção&Negócios – Quando passaram a trabalhar juntos?
Marcelo Todescan – Começamos na faculdade. Depois cada um tomou um caminho diferente e há dezesseis anos decidimos montar a TS Arquitetura. Sempre fomos um escritório pequeno, porém demos uma crescida nos últimos cinco anos, atendendo principalmente o mercado de residências, lojas para as redes McDonald’s e BlockBuster, escritórios e hospitais. Há nove anos, fui para Findhorn [a Fundação de mesmo nome criou uma das primeiras Ecovilas], na Escócia, onde fiz um curso de ecologia e tive o primeiro contato com a sustentabilidade, quando nem se falava nisso aqui no Brasil, e me apaixonei pelo tema. Voltei à cidade um monte de vezes, fiz vários cursos e tentamos fazer uma arquitetura sustentável para aquela época no Brasil, mas era uma novela, tinha que convencer o cliente, era quase impossível, fizemos algumas coisas para amigos. De dois anos para cá, já estão nos procurando com solicitações para fazer uma casa ecológica, entre outros. Hoje, 60% dos projetos já têm alguma preocupação nesse sentido.
C&N – Ainda custa caro fazer um projeto sustentável?
Todescan – Não. Porque o custo é influenciado pela demanda. Como ela cresceu, os materiais já estão economicamente viáveis, mas estamos em uma primeira geração de materiais. Por exemplo, pouco tempo atrás, obter um produto de um fabricante nacional de turbina eólica era caríssimo; assim como era a TV de plasma, que ninguém podia comprar, mas hoje todos têm. Na tecnologia é a mesma coisa. No próximo ano, talvez ainda nesse, as grandes casas já deverão ter uma turbina eólica doméstica. Ela ainda é mais usada na Europa, por incrível que pareça, mas o nosso potencial é maior, uma vez que em todo o litoral venta. Queremos desmistificar a ideia de que só funciona se tiver muito vento. Instalamos uma em Alphaville e está dando conta. Essa tecnologia exige um sistema paralelo. Podemos fazer um mix da turbina eólica com painel solar.
C&N – Como está a concorrência nas áreas em que atuam?
Todescan – Na área de sustentabilidade, não há muita concorrência, e sim cooperação. Temos mais amigos que concorrentes. Se precisamos de um material, ligamos para outro escritório e pedimos ajuda. É claro que existe concorrência para pegar o cliente, mas acho que terão tantos no futuro próximo, que vamos precisar nos ajudar para atender a demanda do mercado que está por vir.
C&N – Quais são as dificuldades de atuar diante da crise financeira?
Frank Siciliano – No primeiro momento, a crise afeta o mercado como um todo. Mas em cada crise também há grandes oportunidades. Viemos nos preparando para gerar projetos e consultoria na área de sustentabilidade, que é uma tendência forte dessa crise. Estivemos recentemente em Londres, no EcoBuilding, onde vimos um pessoal surfando na crise com essa nova visão.
Todescan – A minha sensação é de que essa crise é boa. Porque estávamos escravizados pelo mercado imobiliário ao realizar estudos de viabilidade, de ter que ficar dentro de um custo que a construtora queria que ficasse. Tudo meio casado, senão o consumidor não compra. O arquiteto estava virando desenhista, projetista, isso não é ser arquiteto. Ele é um profissional que, historicamente, participa das decisões das cidades, propõe soluções urbanísticas, não é só um desenhista. Essa crise global possibilita ao arquiteto resgatar o seu principal papel, que é o de propor soluções para esse mundo novo, um mundo melhor.
C&N – Como assim um mundo melhor?
Todescan – Porque todos os lugares que visitei, por exemplo, as cidades de transição (transition towns) na Inglaterra – que estão se preocupando sobre como vão sair dessa para chegar ao mundo sustentável –, estavam mais felizes do que as outras que não tinham iniciado esse processo. Essas cidades têm uma agenda com seus objetivos para serem mais sustentáveis em alguns anos. A cidade de Totnes, na Inglaterra, é uma delas, onde tudo começou.
C&N – O Brasil pode chegar a ser um país de transição?
Todescan – Tem que chegar. Só existe um mundo no futuro – o sustentável. O outro é inviável.
C&N – Então, com a crise, houve redução dos projetos?
Todescan – Com certeza começamos a sentir uma brecada do mercado “normal”, de imobiliário, não do sustentável. As prefeituras são parceiros importantes, porque elas ainda têm um papel fundamental no governo, o de desenvolvimento da linha da sustentabilidade. Sentimos um pouco o impacto porque diminuíram os investimentos na área do governo. Temos três projetos com a Prefeitura de São Paulo que já deveriam ter iniciado; acho que vão acontecer, mas por enquanto estamos aguardando. Um dos projetos é um Telecentro. É um piloto, a Prefeitura quer fazê–lo 100% ecológico, sustentável.
C&N – O que viram de novidade no EcoBuilding, em Londres?
Todescan – Não vimos tanta novidade, mas uma indústria em desenvolvimento.
Siciliano – Enquanto na Feicon [Feira Internacional da Indústria de Construção] estiveram algumas empresas voltadas para energia solar, lá havia trinta. De tratamento de água, quarenta. Vimos ainda profissionais, arquitetos e incorporadores totalmente voltados para essa área e suportados pela indústria. Além disso, houve uma exposição sobre os grandes edifícios públicos com baixos impactos ambientais, tais como escolas. Também havia condomínios e casas prontas, entre outros.
C&N – Como é o relacionamento do escritório com as construtoras?
Todescan – Elas querem atender o mercado. E, para isso, ficamos engessados a uma série de coisas, como as pesquisas, por exemplo, mas temos que atender.
Siciliano – Quando o cliente nos contrata, ele espera que agreguemos inteligência ao processo. É óbvio que alguns clientes têm mais restrições de custo, de mercado. Cabe ao escritório entender o problema dele, trocar ideias e chegar a uma solução melhor para si e para quem vai usar o produto.
Todescan – O que aprendemos desde o começo é que o cliente tem que fazer parte da equipe, e não é discurso de marketing, é o que acontece aqui.
Siciliano – Isso mostra que é eficiente porque temos vários clientes que estão conosco há anos. Há mais de 24 anos atendemos o McDonald’s; fizemos inúmeras lojas para a BlockBuster. No setor de hospitais, temos o grupo Vita, que atende há 16 anos.
Radiografia
Nome do escritório: Todescan Siciliano Arquitetura.
Localização: São Paulo (SP).
Principais arquitetos: Marcelo Todescan e Frank Siciliano.
Histórico: a Todescan Siciliano Arquitetura é uma empresa com mais de 20 anos de atuação. Trabalha no desenvolvimento, consultoria e gerenciamento de projetos sustentáveis de arquitetura, interiores e urbanismo.
Expertise: projetos de arquitetura focados em sustentabilidade.
Divisão das equipes: o processo se inicia pelos titulares e depois é desenvolvido por uma equipe responsável.
Projetos em destaque: Passarela Verde, na zona oeste de São Paulo; McDonald’s, na Riviera de São Lourenço, em Bertioga.
Projetos em andamento: 16.
Média de projetos realizados por ano: 150.
Número de funcionários: 32.
Serviços terceirizados: paisagismo, perspectiva, entre outros.
Critério para escolha de materiais: levam em conta o que vai acontecer com o material nos próximos 50 anos, sob o ponto de vista da sustentabilidade.
Planos futuros: continuar com o trabalho do Centro de Referência e Integração de Sustentabilidade (CRIS).
Texto: Aline Cunha
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