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Sonho realizado
Um momento de reflexão foi o suficiente para mudar os rumos da carreira do engenheiro civil Luiz Fernando Lucho do Valle. Ao completar 50 anos, Valle entendeu que precisava contribuir de alguma forma para tornar o mundo melhor. Sua solução foi criar uma construtora e incorporadora voltada para a concepção e construção de edifícios ecossustentáveis para as classes média e média baixa. Confira a história da Ecoesfera em entrevista que o executivo deu à Construção&Negócios.
Construção&Negócios – Como surgiu a Ecoesfera e a decisão de incorporar sustentabilidade ao negócio?
Luiz Fernando Lucho do Valle – A empresa foi fruto de uma reflexão quando estava prestes a completar 50 anos. Dois anos antes de abrir a empresa, num diálogo derradeiro de meu pai (ele faleceu quatro dias depois), ele pediu que eu procurasse deixar o mundo melhor do que eu encontrei. Isso me marcou muito e vi que a mudança seria construir residências sustentáveis para a classe média e média baixa, na base da pirâmide. Resolvi montar uma incorporadora voltada à construção de residências sustentáveis para esse público, o que determinou o modelo de negócios do grupo Ecoesfera. Meu primeiro desafio foi entender esse modelo – volume é escala, que é velocidade de venda, que depende de preço competitivo, que é atrelado a baixo custo de obra, que volta à escala. Em 2003, sustentabilidade era tema restrito a universidades, congressos e grupos de estudiosos. Quando comecei esse processo, a sustentabilidade estava ligada à preservação do meio ambiente. Meu foco era o prédio verde – que gerasse menor consumo de energia, menos impacto no meio ambiente e tratasse o lixo. Em 2006, entendi que o grande desafio era trazer o conceito para a construção de residências quando vi o documentário do Al Gore (Uma Verdade Inconveniente). Não fazia sentido discutir preservação do meio ambiente em um mundo socialmente injusto. Ao aspecto ambiental do início foram agregados o social e o econômico.
C&N – Como comercializar produtos ecossustentáveis na crise? E as vendas neste início de ano?
Valle – O Brasil e grande parte do mundo começarão de fato a sair dessa situação em 2009. Tivemos uma queda no último trimestre de 2008, mas em janeiro começou uma lenta recuperação; em fevereiro e março, as vendas atingiram o mesmo patamar de antes da crise. Após o primeiro susto, o cliente voltou a comprar de maneira mais consciente. Ele respeita uma empresa que defende conceitos que têm a ver com a sua qualidade de vida e com a autopreservação da vida porque, em última análise, ser sustentável é preservar aquilo que temos de maior valor – a vida. Em 2007, tínhamos R$ 180 milhões em VGV (Valor Geral de Vendas); no ano passado, lançamos R$ 600 milhões. Antes da crise, a ideia era chegar a R$ 1 bilhão, mas agora, talvez fiquemos entre R$ 400 e 500 milhões, numa queda entre 15% e 25%. A leitura dependerá do resultado do fechamento do primeiro trimestre e do começo do seguinte.
C&N – Como adquirem terrenos? Possuem landbank?
Valle – Não, a manutenção de um banco de terrenos é cara e fere o modelo de velocidade. Compramos lotes nos quais caibam nossos projetos, o que facilita tremendamente o processo e reduz custos. Num ciclo de 36 meses, compramoso terreno, lançamos o empreendimento, em seis meses, que é entregue em dois anos e, nos seis meses após a entrega, ocorre o desligamento do banco. Manter terreno em estoque é uma das razões pelas quais as empresas que fizeram IPO (Inicial Public Offer) se endividaram e estão apertadas. A maioria usou boa parte do capital levantado em IPO para comprar terrenos que caíram de valor e hoje valem a metade do que foi pago. Então, landbank é mau negócio.
C&N – A Ecoesfera está no contexto do atual pacote habitacional?
Valle – A empresa tem algumas vantagens; as grandes construtoras têm um histórico de mercado muito bom nos chamados produtos econômicos, mas não têm uma tecnologia desenvolvida para isso e trabalham com alvenaria estrutural. Nós importamos formas de alumínio da Colômbia e estamos construindo um prédio inteiro de concreto, o que gera ganho de produtividade. Estamos entre as que possuem melhores condições para participar deste pacote. Se o governo estruturar e direcionar esse recurso para qualquer empresa com capacidade técnica de desenvolver o produto, estaremos entre as que mais vão construir. Se o governo criar barreiras para direcionar o pacote às grandes companhias, obviamente perderá uma grande oportunidade de fazer aquilo a que se propôs, que é não só entregar um milhão de residências, mas movimentar o mercado.
C&N – Como você encara o seu concorrente?
Valle – Quando iniciamos o trabalho, sabíamos que outras empresas se interessariam pelo assunto. Algumas usaram um termo chamado pela imprensa de green wash, que significa uma pincelada, uma lavada verde, para induzir o cliente a ter uma imagem sustentável do empreendimento. Mas ganhar dinheiro é parte do processo, não a razão de ser; o principal é mudar o mundo, a qualidade de vida das pessoas. Há empresários preocupados em falar do tema, mas, entre falar, divagar e fazer alguma coisa há uma enorme diferença. Mesmo com crise, eu jamais deixaria de fazer produto sustentável porque é a razão da existência da empresa, seu DNA. Às três razões de compra histórica (localização, produto e preço) agregamos a sustentabilidade, e sabemos, por pesquisa no estande, que sete em cada dez clientes decidem a compra devido a essa preocupação do produto.
C&N – A empresa possui empreendimentos certificados?
Valle – Atualmente temos dois empreendimentos green building com o selo LEED americano. Um deles é o Ecolife Independência, localizado em São Paulo, no bairro do Ipiranga; o Ecolife Freguesia está no Rio de Janeiro, em Jacarepaguá. São os dois primeiros pré-certificados pelo Green Building Council americano na América Latina – há outros, mas para empreendimentos comerciais. Um residencial sustentável é muito mais complexo porque envolve quantidade muito maior de atividades. No comercial, a preocupação é economizar energia elétrica e água.
C&N – Quais os planos futuros?
Valle – Gostaria de estar enganado, mas a crise tende a piorar nos próximos meses, atingindo seu ápice muito possivelmente no terceiro e quarto trimestre e entrando em parte do ano que vem. Nesse cenário, criamos vantagens competitivas muito grandes – somos percebidos pelo nosso cliente pelos nossos diferenciais e queremos consolidar o desenvolvimento que trouxemos aos produtos, sem a preocupação de crescer. Talvez fazer até menos, desde que isso signifique não correr riscos. Não é um ano para grandes rompantes ou ousadias, mas para trabalhar com pé no chão, melhorando a qualidade da gestão e do produto.
Nome da empresa: Ecoesfera Empreendimentos Sustentáveis
Localização: São Paulo
Principal executivo: Luiz Fernando Lucho do Valle (presidente)
Histórico: a Ecoesfera Empreendimentos Sustentáveis foi fundada em 2004 e é resultado do ideal de Luiz Fernando Lucho do Valle, que resolveu investir na construção de edifícios residenciais ecoeficientes. A empresa já lançou mais de 2.600 unidades de apartamentos nas cidades de São Paulo, Sorocaba, Campinas, Rio de Janeiro e Porto Alegre.
Expertise: desenvolvimento de habitações ecoeficientes para as classes média e média baixa.
Divisão de equipes: formada por uma incorporadora, construtora e imobiliária; geração de empreendimentos, comercial, técnica, administrativo-financeira e relacionamento com o cliente.
Projetos finalizados: 7
Projetos em destaque: Ecolife Independência, certificado com o selo green building emitido pelo Green Building Council dos Estados Unidos.
Projetos premiados: o empreendimento Ecolife Independência ganhou o prêmio de Construções Sustentáveis do Banco Real.
Média de projetos realizados por ano: 10.
Número de funcionários (diretos e indiretos): 600.
Critério para escolha de materiais de construção: qualidade, preço adequado e afinado com a sustentabilidade.
Texto: Karla Soares
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