Átomos futuristas

Associada a diversas áreas de conhecimento como a eletrônica, física, química e engenharia de materiais, a nanotecnologia é uma das apostas da indústria do vidro para criar produtos diferenciados, que podem contribuir para um melhor controle acústico e solar e maior sustentabilidade.

O princípio básico desta promissora área é a utilização de átomos para a confecção de produtos. Apesar de parecer pós-moderno, o conceito de nanotecnologia não é tão novo assim. No distante ano de 1959, o físico e vencedor do prêmio Nobel, Richard Feynman, já focava seus discursos em palestras na futura existência de um campo de conhecimento baseado na miniaturização, capaz de criar pequenos e poderosos dispositivos.

Em 1986, Eric Drexler, considerado um dos pais da nanotecnologia, apresentou ao mundo o termo no livro Engines of Creation. A partir daí, a pesquisa científica da área se expandiu e já é empregada em setores como a indústria do vidro. Engana-se quem pensa que a nanotecnologia serve apenas para a criação de dispositivos pequenos com alto poder de processamento de informações – atualmente ela também é utilizada na confecção de materiais mais sustentáveis.

Um bom exemplo é a linha de vidros Bioclean, produzida pela Cebrace. Segundo o gerente de desenvolvimento de mercado da empresa, Carlos Henrique Mattar, o produto vem atender uma demanda de redução na manutenção em envidraçamentos de áreas de difícil acesso, como coberturas e fachadas. A capacidade de autolimpeza, característica principal do Bioclean, foi possibilitada graças à utilização de nanotecnologia na concepção da linha. “Havia a necessidade de uma ‘camada’ que trabalhasse com os recursos presentes na natureza e pudesse se regenerar constantemente”, explica.

A nanotecnologia permitiu utilizar sobre a superfície do vidro uma camada fina de dióxido de titânio que, ao entrar em contato com os raios solares UVA, reage com o oxigênio e as moléculas de água da atmosfera e produz radicais livres, ocasionando uma variação oxidativa. O dióxido é um elemento semicondutor muito utilizado como agente fotocatalítico (acelera uma reação química por meio da luz ou outra fonte de energia radiante); a propriedade fotocatalítica do mineral o torna um excelente aliado no controle de microorganismos nocivos ao homem.

A oxidação degrada os materiais orgânicos que comumente se depositam na superfície dos vidros e os transforma em moléculas voláteis, eliminando o uso de produtos de limpeza em sua face exterior. Assim, fachadas desenvolvidas com esse tipo de tecnologia não são afetadas por poeira, resquícios de chuva, respingos marítimos, poluentes atmosféricos ou orgânicos. Adicionam-se a esta vantagem competitiva a proteção contra os raios solares UV e a visão sempre nítida, mesmo em dias chuvosos.

De acordo com a Cebrace, se corretamente especificado e com a inclinação adequada, a ação autolimpante do produto é ativada em poucos dias após a primeira exposição à luz solar, reagindo de acordo com o grau e a natureza das sujidades. A empresa indica o uso do vidro com propriedades nanotecnológicas (cuja espessura é de 4 mm) sempre em áreas externas, como fachadas, coberturas (com inclinação acima de 10%), janelas, portas e sacadas, bem como em setores de infraestrutura, como aeroportos ou pólos industriais – estes últimos, por estarem sujeitos a altos níveis de poluentes.

Sobre o uso da nanotecnologia em outros produtos da empresa, Mattar explica que a Cebrace costuma avaliar como as tecnologias produzidas globalmente no grupo formado pela joint-venture entre a japonesa NSG/Pilkington e a francesa Saint-Gobain podem ser aplicados no Brasil. “No momento, estamos concentrando nossos esforços na linha de vidros para controle solar, que devem passar por uma nova evolução”, declara.