Cola de marisco

Os oceanos contam com uma ampla variedade de fauna que produz substâncias que podem ser aproveitadas pela ciência. Alguns exemplos disso são as cracas (tipo de crustáceo), que se cimentam às rochas; as estrelas do mar, que utilizam um tipo de adesivo para se locomover, e os mexilhões azuis comuns (Mytilus edulis), que geram uma “super-cola” com adesão sobre praticamente qualquer superfície. Foi a partir deste princípio que o pesquisador e professor de química inorgânica Jonathan Wilker e sua equipe iniciaram estudos, na Universidade de Purdue, em Indiana, nos Estados Unidos, para compreender como tais materiais biológicos funcionam, projetar imitadores sintéticos e desenvolver aplicações que servirão, inclusive, para o setor de construção civil.

“Em termos de adesivos para a indústria de construção, acredito que os imitadores sintéticos serão o melhor caminho a seguir. Isso porque o material pode ser extraído dos mexilhões, mas não em quantidades muito grandes”, alega. Segundo ele, os mexilhões azuis comuns têm características muito peculiares: eles produzem uma mistura de proteínas adesivas que contêm um aminoácido denominado dopa e aderem às rochas e outras superfícies úmidas. “Podemos imitar as complexas proteínas adesivas dos mexilhões. Assim, é possível ter acesso a grandes quantidades do material, costurar a composição e chegar às diferentes propriedades de adesivos desejadas”, explica.

“Atualmente estamos patenteando a tecnologia e procuramos sócios industriais para comercializar os materiais. Assim, os adesivos não estão atualmente disponíveis para aplicações na construção, mas esperamos que isso possa ocorrer no futuro”, afirma o pesquisador. A substância, de acordo com Wilker, poderá ser adaptada para colar madeira, metal e até concretos. O laboratório da universidade tem cerca de 800 mexilhões que ficam alojados dentro de grandes tanques. Os pesquisadores utilizam verificadores de tração e outros equipamentos similares para testar a colagem do produto junto aos materiais. O pesquisador ainda aposta na utilização desses adesivos na medicina, em colas cirúrgicas e até para uso dental.

Wilker e sua equipe também estudam as propriedades da cola do mexilhão zebra (Dreissenia polymorpha) para encontrar formas de impedir que esses animais engatem nos navios. Esses bivalves foram introduzidos nos Estados Unidos na década de 1980, provavelmente como “passageiros clandestinos” no lastro de um navio que viajou da Europa para os Grandes Lagos. Os custos para controlar a praga, que se agarra a quase tudo que é sólido, até o ano 2000, passaram dos US$ 500 milhões.

Tintas amigáveis

Com o objetivo de promover construções cada vez mais sustentáveis, surgem no mercado diversos produtos que visam reduzir as agressões ao meio ambiente. O setor de tintas não poderia ficar de fora. Um desses produtos é a tinta Solum. Com uma paleta de 15 cores, o produto tem como base a “tinta de terra” – um revestimento ecológico e sustentável desenvolvido com pigmentos minerais puros de terra e base aquosa não tóxica, livre de metais pesados encontrados em pigmentos sintéticos.

A tinta é produzida por meio de processo físico, sem auxílio de meio químico e com baixo uso de energia. A matéria-prima é extraída de jazidas certificadas e, durante a transformação em produto final, não há emissões tóxicas. Também é livre de Compostos Orgânicos Voláteis (COV’S), substâncias poluentes derivadas do petróleo, que agridem a camada de ozônio.

Quem idealizou o produto foi a arquiteta Letícia Achcar, adepta da arquitetura organicista, que há 25 anos realiza construções ecológicas no Brasil e na Europa utilizando a terra crua. Entre as qualidades do produto, a arquiteta destaca a intensidade das cores, que não desbotam porque o pigmento é mineral. A tinta também não possui plastificante, não cria película ou bolhas. É inodora e permite que a parede respire, pois a composição natural, sem resina acrílica, faz com que a umidade interna ao substrato seja trocada com o ambiente externo.

Inovações

Outras empresas também têm investido no conceito de sustentabilidade, como a AkzoNobel. A fabricante global de tintas e revestimentos, proprietária das marcas Coral e Sparlack no Brasil, lançou cinco novos produtos classificados como amigáveis ao meio ambiente. É o caso do Decora Luz & Espaço, um acrílico premium da Coral com a tecnologia internacional patenteada Lumitec – que provoca sensação de maior luminosidade e ajuda a tornar o ambiente mais claro. Com isso, o consumidor ligaria a luz mais tarde e obteria economia de energia elétrica.

Já a Rende Muito Tinting passou por uma adaptação em sua fórmula e se tornou uma tinta base, podendo agora receber pigmentação das máquinas do sistema tintométrico. O consumidor pode escolher mais de mil cores e usufruir do mesmo rendimento por litro das cores prontas. O produto dilui até 60% com água e pinta até 380 m2 por lata de 18 litros.

Outro produto que sofreu adaptação foi a Coralar Acrílico. A nova fórmula permite maior cobertura e baixa emissão de CO2 e teor reduzido de componentes voláteis (VOC). A oferta de cores do Coralar Acrílico foi expandida.

O verniz Sparlack Efeito Natural é uma novidade da marca Sparlack que conta com fórmula à base de água e teor residual muito baixo de voláteis orgânicos. O último produto apresentado, que surge agora na versão à base de água, é o Sparlack Extra Marítimo Base Água, que apresenta teor residual mínimo de voláteis orgânicos e baixo nível de CO2.

Imóveis em alta

Imóveis em alta

Basta abrir os jornais, consultar os sites especializados na internet ou visitar os stands de vendas dos novos empreendimentos para comprovar que o preço do m² em São Paulo, de forma geral, subiu significativamente, deixando parte dos imóveis em um patamar jamais pensado há cinco anos. Falta de terrenos, estímulo da economia e programas governamentais de habitação – como o Minha Casa Minha Vida, estão entre os motivos apontados pelos especialistas do setor.

O Sindicato da Habitação (Secovi-SP) é uma das entidades que estuda esses fatores. Segundo seu economista-chefe, Celso Petrucci, na cidade de São Paulo foi detectado que o estoque de projetos aprovados vem caindo. Ao mesmo tempo, a venda tem sido maior nesse período e consome o estoque. “Por exemplo, se lançamos 3.000 unidades no mês, vendemos 4.000, ou seja, foram consumidas mais 1.000 unidades do estoque além dos lançamentos”, explica.

Petrucci aponta alguns fatores, como a falta de potencial construtivo de alguns bairros e de Certificados de Potencial Adicional de Construção (Cepac) nas operações urbanas, entre outros.

A entidade comparou a valorização do metro quadrado ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e notou que os valores estão próximos; alega também que essa valorização está abaixo do Índice Nacional de Custo da Construção (INCC). “Desde março até junho, os índices ainda estão maiores que o preço da área útil. Isso mostra a aderência do mercado à demanda”.

Em algumas regiões da cidade, segundo o especialista, o preço não tem elasticidade. “Na Vila Nova Conceição, por exemplo, o metro quadrado pode custar R$ 10 mil ou R$ 12 mil, mas sempre haverá comprador. Porém, existe a franja de São Paulo, que oferece imóveis a partir de R$ 100 mil, 140 mil. Ou seja, o preço que subiu na Vila nova Conceição não será igual ao de Itaquera”, avalia.

Na opinião do diretor de economia do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), Eduardo Zaidan, o mercado imobiliário estava reprimido durante muito tempo e começou a crescer a partir de 2007. “Era ameno, não havia financiamento, os imóveis eram inexistentes. Depois, a produção passou a ficar mais intensa e os terrenos, escassos. Tivemos inflação setorial e os índices subiram. Acredito que houve uma recuperação de preço em função desse mercado, que era reprimido”, diz.

Zaidan ainda considera muito cara a construção em São Paulo, lembrando que o setor ainda se ressente da falta de mão-de-obra especializada. “Cerca de um milhão de pessoas ingressaram no mercado, mas não podemos esperar que tenham a mesma produção de um profissional com experiência”, diz. Somente este ano, o Sinduscon – SP está oferecendo 46.500 cursos de qualificação, reciclagem e elevação de conhecimento para todo o estado de São Paulo.

Revisão polêmica

O desafio, afirma Zaidan, é superar a falta de terrenos. “Em algumas regiões não há mais estoque, como na Faria Lima, ou custa mais caro quando são muito demandadas. Mesmo na região leste, há subdistritos na Mooca onde também não há terrenos; no Belém, a mesma coisa. O Plano Diretor escasseou o potencial construtivo no estado e a sua revisão está empacada”, informa. O setor imobiliário pleiteia a atualização dos limites do Plano Diretor Estratégico (PDE) para construção em cada região, pois o cálculo usado foi realizado há muito tempo.

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, também alega que, após décadas de hibernação, o setor imobiliário começou a crescer novamente. Isso seria fruto de mudanças de legislação, como a alienação fiduciária, além da própria estabilidade econômica, que dá condições mais amplas de expandir o setor, beneficiando uma população com demanda reprimida. “Começou-se a discutir se estaríamos entrando em um ciclo vicioso de crescimento de preços que pudesse ser entendido como bolha.”, afirma.

Segundo um estudo realizado pela MB Associados, os preços continuarão subindo porque há um forte processo de crescimento de demanda acima da oferta, e não por causa de uma bolha – que, de acordo com a definição dada por Joseph Stiglitz, aparece quando os preços sobem simplesmente porque os preços no futuro subirão, ou seja, quando os fundamentos de demanda e oferta não conseguem mais explicar a relação de preços naquele momento.

nanotecnologia em vidros

Átomos futuristas

Associada a diversas áreas de conhecimento como a eletrônica, física, química e engenharia de materiais, a nanotecnologia é uma das apostas da indústria do vidro para criar produtos diferenciados, que podem contribuir para um melhor controle acústico e solar e maior sustentabilidade.

O princípio básico desta promissora área é a utilização de átomos para a confecção de produtos. Apesar de parecer pós-moderno, o conceito de nanotecnologia não é tão novo assim. No distante ano de 1959, o físico e vencedor do prêmio Nobel, Richard Feynman, já focava seus discursos em palestras na futura existência de um campo de conhecimento baseado na miniaturização, capaz de criar pequenos e poderosos dispositivos.

Em 1986, Eric Drexler, considerado um dos pais da nanotecnologia, apresentou ao mundo o termo no livro Engines of Creation. A partir daí, a pesquisa científica da área se expandiu e já é empregada em setores como a indústria do vidro. Engana-se quem pensa que a nanotecnologia serve apenas para a criação de dispositivos pequenos com alto poder de processamento de informações – atualmente ela também é utilizada na confecção de materiais mais sustentáveis.

Um bom exemplo é a linha de vidros Bioclean, produzida pela Cebrace. Segundo o gerente de desenvolvimento de mercado da empresa, Carlos Henrique Mattar, o produto vem atender uma demanda de redução na manutenção em envidraçamentos de áreas de difícil acesso, como coberturas e fachadas. A capacidade de autolimpeza, característica principal do Bioclean, foi possibilitada graças à utilização de nanotecnologia na concepção da linha. “Havia a necessidade de uma ‘camada’ que trabalhasse com os recursos presentes na natureza e pudesse se regenerar constantemente”, explica.

A nanotecnologia permitiu utilizar sobre a superfície do vidro uma camada fina de dióxido de titânio que, ao entrar em contato com os raios solares UVA, reage com o oxigênio e as moléculas de água da atmosfera e produz radicais livres, ocasionando uma variação oxidativa. O dióxido é um elemento semicondutor muito utilizado como agente fotocatalítico (acelera uma reação química por meio da luz ou outra fonte de energia radiante); a propriedade fotocatalítica do mineral o torna um excelente aliado no controle de microorganismos nocivos ao homem.

A oxidação degrada os materiais orgânicos que comumente se depositam na superfície dos vidros e os transforma em moléculas voláteis, eliminando o uso de produtos de limpeza em sua face exterior. Assim, fachadas desenvolvidas com esse tipo de tecnologia não são afetadas por poeira, resquícios de chuva, respingos marítimos, poluentes atmosféricos ou orgânicos. Adicionam-se a esta vantagem competitiva a proteção contra os raios solares UV e a visão sempre nítida, mesmo em dias chuvosos.

De acordo com a Cebrace, se corretamente especificado e com a inclinação adequada, a ação autolimpante do produto é ativada em poucos dias após a primeira exposição à luz solar, reagindo de acordo com o grau e a natureza das sujidades. A empresa indica o uso do vidro com propriedades nanotecnológicas (cuja espessura é de 4 mm) sempre em áreas externas, como fachadas, coberturas (com inclinação acima de 10%), janelas, portas e sacadas, bem como em setores de infraestrutura, como aeroportos ou pólos industriais – estes últimos, por estarem sujeitos a altos níveis de poluentes.

Sobre o uso da nanotecnologia em outros produtos da empresa, Mattar explica que a Cebrace costuma avaliar como as tecnologias produzidas globalmente no grupo formado pela joint-venture entre a japonesa NSG/Pilkington e a francesa Saint-Gobain podem ser aplicados no Brasil. “No momento, estamos concentrando nossos esforços na linha de vidros para controle solar, que devem passar por uma nova evolução”, declara.

Bola da vez

No dia 12 de junho de 2014, Itaquera foi o centro das atenções de todo o planeta. Nesta data, às 17 horas, a seleção brasileira entrou em campo para realizar a partida de abertura da Copa do Mundo no estádio do Corinthians. Para quem não conhece São Paulo, o bairro está entre os mais pobres da capital paulista. Situado quase no extremo Leste da cidade, distante aproximadamente 15 km do centro, é o 10° distrito mais populoso entre os 96 do município, com 220.292 habitantes, segundo o censo de 2010, e conta com uma oferta de empregos inversamente proporcional à quantidade de favelas. Por isso, receber o primeiro jogo do mundial de futebol, o evento esportivo de maior audiência da Terra, foi um marco histórico para seus moradores, e uma chance única para promover o desenvolvimento de uma área que por décadas foi relegada pelo poder público e pela iniciativa privada.

Mas a nova arena é apenas o ícone mais visível e midiático dessa renovação que está a caminho. Itaquera também ganhará, nos próximos anos, equipamentos como um campus da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), uma unidade da Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec), um fórum e um polo tecnológico para atrair empresas e fomentar a criação de postos de trabalho. Aliados a melhorias que estão sendo feitas em sua estrutura, esses fatores deverão tirar totalmente a região do patamar de esquecimento em que se encontrava. “O estádio acaba fazendo o papel de protagonista, mas o que deve mesmo atrair o mercado imobiliário, os investimentos privados e favorecer o crescimento são essas construções periféricas que estão sendo projetadas ou que já começaram a sair do papel, como a Unifesp, a Fatec e o Fórum”, prevê Leandro Caramel, superintendente de atendimento da Habitcasa, imobiliária do Grupo Lopes.

Embora até aqui os efeitos no lançamento de empreendimentos residenciais tenham sido pequenos, é consenso entre especialistas que o bairro deverá se tornar um alvo cada vez mais cobiçado por construtoras e incorporadoras à medida em que as obras em curso forem sendo concluídas e a renda dos habitantes locais for aumentando. “A minha sensibilidade diz que Itaquera é a bola da vez. Já estão previstos sete ou oito lançamentos, mais do que nos últimos anos”, afirma Celso Petrucci, economista-chefe do Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo (Secovi-SP). E ele fala com a propriedade de quem conhece bem o assunto. Durante oito anos, Petrucci foi dono de uma firma que vendia imóveis no distrito e em áreas adjacentes, como Guaianases e Parque do Carmo.

E como ele indicou, algumas companhias já estão preparando projetos para aproveitar esse momento de renovação. Um exemplo é a construtora e incorporadora Cury, que, embora tenha uma forte atuação na zona Leste da cidade, ainda não possui unidades em Itaquera. No segundo semestre deste ano, a empresa pretende lançar um edifício residencial na Rua Agrimensor Sugaya, a aproximadamente 5 km da Arena Corinthians.

O prédio seguirá o padrão dos outros que fazem parte do seu portfólio, voltados para clientes das classes B e C que estão passando por uma ascensão de renda, com apartamentos simples, porém com espaços de lazer e vagas para carro. Como o comprador procura lugares com infraestrutura e que atendam às suas demandas sem que seja preciso se deslocar para muito longe, a companhia acredita que este é o momento ideal para investir na região. “A construção do estádio fez com que o bairro se preparasse para receber uma grande demanda tornando-se atrativo para as incorporadoras. As verbas do governo estão voltadas para lá. Os imóveis ficarão mais valorizados e, desta forma, é um excelente investimento também para o consumidor”, explica Fabio Cury, presidente da construtora.

E não é apenas a perspectiva de grandes melhorias finalmente saírem do papel, principalmente as obras viárias, que está motivando o mercado. Há também um componente socioeconômico: o aumento de renda da população, fenômeno visto na sociedade brasileira como um todo. Com isso, muitas famílias que melhoram sua condição financeira e antes procuravam imóveis em outras zonas mais desenvolvidas e próximas ao centro, como Tatuapé, Mooca e Vila Formosa, agora levarão as incorporadoras a oferecer empreendimentos de um padrão um pouco mais elevado no próprio distrito. A tendência é que passem a surgir unidades de dois e três dormitórios um pouco maiores e com serviços de lazer integrados. “Nos próximos anos, as pessoas que pretendiam sair de lá para morar na Penha, Vila Matilde, Anália Franco e Tatuapé serão atendidas pelo mercado imobiliário com unidades melhores”, acrescenta Petrucci.

Uma visão parecida é compartilhada por Leandro Caramel. Segundo ele, até 2010 os projetos eram todos econômicos. Edifícios baixos, sem elevador, com escassas opções de lazer. Daí em diante, o aumento nos preços na cidade em geral trouxe a necessidade de aperfeiçoar o produto, então começaram a surgir prédios mais altos, alguns com três quartos, condomínios com piscina e uma área para diversão mais completa. No entanto, essa mudança de perfil tem um limite, porque a condição social e econômica da população local ainda é baixa. “Não dá para lançar hoje um apartamento de quatro dormitórios. A renda precisa aumentar, além de ser uma zona ainda carente também de empreendimentos econômicos. Mas essa nova infraestrutura deve gerar empregos e renda; essa é uma das apostas do mercado”, calcula.

De acordo com números da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), o salário médio do trabalhador residente na subprefeitura de Itaquera (que reúne os distritos de Itaquera, Parque do Carmo, Cidade Líder e José Bonifácio) é de R$ 1.063,00 ao mês, enquanto em São Paulo esse valor é de R$ 1.523,00. E apesar de concentrar 4,65% da população do município, conta com apenas 1,76% dos postos de trabalho. “A região realmente está recebendo obras de infraestrutura, mas a renda ali ainda é muito baixa. É um problema crônico. Para o mercado se interessar, tem que se criar incentivos para quem mora no Tatuapé, por exemplo, se mude para lá, ou então melhorar a condição dos habitantes locais”, salienta Celso Amaral, diretor corporativo da AmaralD’Avila Engenharia de Avaliações e da consultoria Geoimovel.

Talvez isso explique o fato de ter havido apenas dois lançamentos verticais no bairro em 2012, totalizando 172 unidades, enquanto no ano anterior foram lançados seis projetos, que somavam 424 apartamentos. “Isso só vai mudar quando o emprego estiver perto das pessoas. É algo que demora, não acontece por decreto. O Tatuapé está muito bem, Penha e Vila Carrão estão melhorando. O progresso está andando em direção a Itaquera, mas ainda vai demorar um pouco para chegar lá.”

Junto com o progresso está chegando também a valorização. Enquanto em 2008 o preço médio do m² nos imóveis novos era de R$ 1.991,39, em 2012 o custo era de R$ 3.401,85, segundo dados da Geoimovel. “Já o incremento do valor de revenda da unidade em relação ao preço cobrado no lançamento foi de 50% nos últimos três anos, e pelo que falamos com as construtoras o custo dos terrenos também cresceu 50%”, conta Leandro Caramel.

De acordo com ele, esse movimento foi mais forte em 2010 e 2011. Logo que foi anunciada a abertura da copa na Arena Corinthians, muitas empresas que já tinham terrenos aceleraram os projetos para aproveitar o fator novidade e sair na frente dos concorrentes. Quem não tinha iniciou o processo de compra de terras para receber futuros edifícios. E até chegar à fase de colocar os apartamentos à venda sempre leva um certo tempo. “Então, a expectativa é que as incorporadoras conseguirão lançar este ano por causa do processo natural que vem desde a compra do terreno e também para conciliar com a entrega de parte dessa infraestrutura nova.”

Contraste moderno

Contraste moderno

Isabella Stewart Gardner tinha o seu lugar preferido no mundo: a romântica Veneza. No final do século XIX, essa colecionadora de arte e filantrópica americana gastava seu tempo viajando por diversos países do mundo com seu marido, Jack Gardner, e se encantou pela cidade das gôndolas e pela cultura italiana. Tal paixão seria a principal fonte de inspiração para que ela projetasse, em 1902, um lugar em Boston (EUA) para abrigar o enorme acervo artístico que reuniu durante sua vida. Simulando os traços de um palácio veneziano, o museu Isabella Stewart Gardner exibiu durante mais de um século uma coleção de 5 mil objetos, compreendendo 30 séculos de história, com obras de Botticelli, Ticiano, Michelangelo e Rembrandt, além de esculturas, móveis, tapeçarias e manuscritos.

No entanto, com o passar do tempo e o ritmo intenso de atividades, a estrutura do espaço começou a se desgastar, e surgiu a necessidade de uma ampliação. A tarefa de aliviar a pressão sobre o histórico edifício coube, coincidentemente, a um italiano, o arquiteto vencedor do Pritzker Renzo Piano. “O palácio de Isabella Gardner, com sua inestimável coleção e inimitáveis instalações, sempre será o foco, mas só poderia permanecer assim com a construção de um novo prédio”, afirmou Anne Hawley, diretora do museu.

A nova ala é formada por quatro volumes revestidos com cobre pré-patinado verde colocados sobre um piso de vidro, criando a impressão de flutuação. Ela foi desenhada para proporcionar ao visitante uma relação visual contínua com a edificação original. A galeria de exposições, que irá receber três grandes mostras por ano, conta com pé-direito triplo e um teto retrátil que varia de tamanho de acordo com o programa exibido. A sala é banhada pela luz natural que entra por uma claraboia e pela fachada de vidro ao lado Norte, com vista privilegiada para o edifício idealizado por Isabella Gardner.

“Esse é um lugar para onde nós podemos levar as obras de arte do acervo. Assim dá para observar algo na sua mão um pouco mais cuidadosamente por um tempo, e três ou quatro meses depois elas voltam a descansar no palácio”, diz Renzo Piano. A mesma estética foi levada ao Cafe G, o novo restaurante do centro cultural, que com três de seus lados tomados por paredes transparentes, permite que as pessoas façam suas refeições com a presença constante da construção veneziana e jardins adjacentes.

O aproveitamento dos raios solares é apenas uma das medidas adotadas para dar um toque de sustentabilidade à expansão do museu. O anexo foi projetado para receber a certificação Leed Gold do Green Building Council dos Estados Unidos. Para isso, também foram instalados oito poços geotérmicos a fim de aumentar a eficiência dos sistemas de aquecimento e resfriamento, uma solução que pode proporcionar uma redução de até 25% no consumo de energia. Um sistema de captação e armazenamento das águas pluviais faz a irrigação dos jardins. Boa parte dos materiais utilizados na obra são locais ou regionais e possuem componentes reciclados.

Outro destaque do projeto é a sala para performances. Desenhada em colaboração com o engenheiro acústico Yasuhisa Toyota, da Nagata Acoustics, o espaço teve seus 296 assentos distribuídos em três andares – além do piso principal – ao redor de todo o palco, preservando a experiência intimista que caracteriza as apresentações musicais do local. “A ideia da sala de espetáculos é ser uma câmara harmônica, onde as pessoas aproveitam o som, mas também desfrutam olhando nos olhos do homem ou da mulher na frente delas”, explicou Piano.

O museu ainda conta com novas estufas abertas aos visitantes interessados em ver as plantas que estão sendo preparadas para o jardim, uma sala para aulas de paisagismo, um estúdio de arte com oficinas para todas as idades e dois apartamentos com fachada de vidro inclinado, destinados a receber os artistas do seu programa de residência.

Diferencial ecológico

Diferencial ecológico

Em tempos de preocupação com o aquecimento global, o conceito de sustentabilidade parece ter deixado a roda dos ecologistas e ativistas e ganhado o mundo. Bom para o planeta e ótimo para os negócios. Empresários e executivos do mercado imobiliário – incluídas as construtoras, incorporadoras e até os clientes alarmados pelo futuro do planeta – não poderiam ficar de fora do tema. O resultado? Os chamados green buildings, os “prédios verdes”. Muito mais que uma construção ecologicamente correta, esse tipo de empreendimento sustentável se tornou um grande diferencial de marca, venda e atitude, com oportunidades atrativas e reais de novos negócios.

Newton Figueiredo, presidente da empresa de engenharia de sustentabilidade SustentaX, define empreendimentos sustentáveis como aqueles que, “harmonizados com o meio ambiente e com a comunidade de sua influência, proporcionam o melhor retorno para seus investidores e proprietários, além de menores custos e melhor saúde, conforto e produtividade para seus ocupantes”. Já Thassanee Wanick, presidente do Green Building Council Brasil (GBCB), completa que “as técnicas aplicadas nesse tipo de empreendimento promovem melhor desempenho estrutural dos edifícios e o aumento da qualidade de vida de seus ocupantes, além de evitar o desperdício de recursos naturais e reduzir os custos de manutenção”. O fato é: um green building, hoje, é um diferencial de mercado.

“Atualmente não há dúvidas de que todos querem estar dentro do tema da sustentabilidade. Além disso, as pessoas estão procurando fazer alguma coisa para se inserir nesse novo momento, postura que deve se tornar fator fundamental para auxiliar na decisão de compra deste ou daquele edifício, desta ou daquela casa”, afirma Marcelo Takaoka, diretor-presidente do recém-criado Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS).

Segundo ele, o tema está em todas as pontas da cadeia construtiva: “para o investidor, os aspectos da sustentabilidade serão decisivos na hora de decidir pela compra de imóveis sustentáveis ou não. Esse será um diferencial competitivo. O incorporador e o construtor vão querer adotá-los em seus empreendimentos – uso racional de água, energia e reciclagem de lixo hoje representam adicionais ao produto imobiliário. O comprador, por sua vez, quer fazer sua parte economizando água, energia elétrica e emitindo menos poluição, o que se reflete não só no meio ambiente, mas no próprio bolso”.

Diferenciação competitiva

Para ser um green building, o edifício precisa contemplar normas internacionais e ser certificado pelo selo Leadership in Energy and Environmental Design (Leed) – em português, algo como “Liderança em Energia e Design Ambiental”. Atualmente, esse é um dos sistemas de avaliação e certificação reconhecidos mundialmente, que emite selos de acordo com as características da construção.

Outro, mais ou menos na mesma linha, por exemplo, é o modelo francês Haute Qualité Ambientale – HQE, ou Alta Qualidade Ambiental. Para obtê-lo, o empreendimento passa por uma avaliação em quesitos, como uso da iluminação natural, baixo uso de energia, tratamento adequado do esgoto, sistemas econômicos de ar-condicionado, uso de materiais reciclados, capacitação e reaproveitamento da água da chuva e gestão de perdas e resíduos.

Cada categoria vale um determinado número de pontos. Quanto mais pontos o projeto somar, mais graduado será, podendo ser enquadrado em uma das seguintes categorias: Certificado, Prata, Ouro e Platina. No total, são 69 pontos – e o mínimo exigido para obter a certificação, que varia de tipos construtivos (comerciais, residenciais ou novos, entre outros), são 26 pontos. O nível mais alto é o Platina, para empreendimentos que pontuarem na faixa dos 52 a 69 pontos, ou seja, de 85% a 100% das exigências atendidas (veja box “Tipos de Leed”).

“O green building, felizmente, é hoje uma tendência irreversível”, avalia Thassanee Wanick. “Fora os benefícios ambientais, ele consegue reunir um conjunto de práticas que melhora e valoriza a localização do empreendimento, o design e os próprios custos, ainda que em longo prazo. Isso sem falar que cria uma marca de credibilidade no mercado, que vai muito além do marketing barato, fortalecendo, por exemplo, a carteira de clientes. Que instituição financeira, na hora de investir, não vai olhar para isso, ou seja, para a longevidade de um benefício real antes de fechar negócio?”, indaga.

Dados do U.S. Green Building Council (USGBC) – organização sem fins lucrativos criada em 1993 nos Estados Unidos, responsável pela consolidação do sistema Leed e certificação de edificações ambientalmente sustentáveis – mostram que existem hoje cerca de 800 edifícios comerciais (veja box “Green building no mundo”) já certificados em todo o mundo, e outros quase sete mil projetos (também de construções comerciais) registrados no USGBC, em busca do selo. Atualmente, segundo Thassanee, cerca de 6% do mercado imobiliário norte-americano já cumpre as normas do Leed. “A expectativa é que nos próximos anos 10% dos prédios dos Estados Unidos tenham o selo verde”, comemora.

Já o presidente da SustentaX diz que este é o caminho da diferenciação competitiva daqui para frente. “A partir de agora não bastará ter produtos e serviços de qualidade, preços e atendimento bons. O cliente percebe quando, por trás do sorriso do atendente, há responsabilidade social e ambiental. Não é à toa que empresas grandes, como Bradesco, Unilever, Itaú e McDonald’s, propagam isso. Elas já falam há muito tempo em práticas socioambientais. A novidade é que, de agora em diante, essas ações deverão fazer parte de seu planejamento estratégico, visando a sustentabilidade competitiva de seus negócios”. Ainda de acordo com Figueiredo, para ser sustentável é preciso um equilíbrio entre ética e fatores econômicos, sociais e ambientais.

aluguel

O velho e bom aluguel

Quem nunca ouviu a história de que aqui, no Brasil, o melhor investimento que alguém poderia fazer durante a vida era comprar duas ou três casinhas para, na velhice, ter no aluguel uma fonte de renda garantida (além da irrisória aposentadoria do INSS), que atire a primeira pedra. Num país marcado, historicamente, por instabilidade econômica e sucessivas crises políticas, não foi difícil o imóvel – um bem físico e real – ocupar o posto de primeira opção de investimento entre os mais variados níveis financeiros.

“É inegável que investir em imóvel traz um conforto psicológico muito grande. Quem coloca 90% do seu patrimônio num imóvel dorme tranquilo; já quem aplica 50% dele em ações, por exemplo, não dorme tão bem assim”, avalia Mauro Halfeld, especialista no mercado financeiro nacional, professor titular da Universidade Federal do Paraná e autor de vários livros, entre eles Seu imóvel: como comprar bem. Segundo Halfeld, outra vantagem é que o imóvel é um grande disciplinador. “Nenhum outro investimento impõe tanta disciplina ao investidor porque, no geral, todo mundo se aperta, poupa daqui e dali para comprar uma casa, o que não ocorre, por exemplo, com uma aplicação, que recebe dinheiro somente quando sobra”, avalia.

José Roberto Saldanha Federig, vice-presidente de locação do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo (Secovi-SP), concorda que, especialmente numa sociedade de consumo, é muito difícil guardar dinheiro, mas diz ainda que tudo é uma questão de tradição. “É difícil definir o perfil de quem investe em imóvel. Se um pai lê o jornal A, provavelmente o filho também o lerá. A mesma coisa ocorre com os investimentos. Quem vive numa família que, tradicionalmente, aplica em imóvel, provavelmente vai achar que é um bom negócio”, afirma. Independentemente disso, o imóvel sempre foi e será um bem atrativo; soma-se a isso o fato da locação ser um dos entes mais dinâmicos do segmento imobiliário – e o mercado locatário, pelo menos de São Paulo, vai muito bem, obrigada.

“As expectativas para o mercado de locação são as melhores possíveis”, afirma José Roberto Graiche, presidente do Conselho Consultivo da AABIC, principalmente se considerarmos investimentos em imóveis residenciais e conjuntos residenciais de pequeno porte (um e dois dormitórios, ou de conjuntos comerciais de pequeno porte, em torno de 30 e 40 metros quadrados). “Nesses segmentos, o retorno financeiro está entre 0,8% a 1% do valor do imóvel. E ainda há de se considerar a valorização anual do patrimônio”, argumenta, completando que “é um investimento com valorização garantida e sem riscos. Nos últimos meses, só perde para a aplicação em ações”.

O professor Mauro Halfeld diz que, embora os imóveis rendam menos que as ações em longo prazo, são bem menos arriscados porque não têm liquidez. “O problema das ações é a enorme liquidez. Nos imóveis, as pessoas não saem vendendo tudo a qualquer rumor de crise. Além disso, investir em ações em curto prazo é imprevisível. Numa linha de opções de investimento, colocaria o imóvel no caminho entre as ações e a renda fixa em longo prazo”. Perguntado sobre a poupança, Halfeld até brinca: só investe nela quem tem pouco dinheiro ou é muito pão-duro.

José Roberto Graiche diz ainda que a valorização do mercado de locação não é apenas um processo de recuperação dos valores – que ficaram defasados durante muito tempo, o que levava os proprietários de muitos imóveis a preferir deixá-los fechados, ao invés de alugá-los. “Em 2003, o tempo para conseguir locar um imóvel em São Paulo era de seis meses. Hoje, trabalhamos com o prazo de 40 dias. E só não aluga quem está com o preço fora do mercado ou tem o imóvel em péssimo estado de conservação”.